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Brasileira que catava restos na feira disputa presidência da associação da Universidade de Coimbra

12 Out
16:43 2017
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Carlos Guerra, de Coimbra/PT

A vida não permitiu um caminho fácil para Luciana Carmo. Nascida no Jardim Ângela, periferia da zona sul de São Paulo, ela que tinha que catar restos na feira para ter algo para comer, durante a sua infância e adolescência. Filha da empregada doméstica Maria do Carmo, não esconde as dificuldades que passou e se orgulha por trilhar um caminho que não se esperava de outras pessoas que passam por dificuldades semelhantes.

Hoje, aos 29 anos, ela superou essa realidade e atualmente ocupa posição de destaque na Universidade de Coimbra, pólo educacional mais tradicional de Portugal. Mestranda em filosofia na Universidade de Coimbra, Luciana ainda é atualmente presidente do Conselho Fiscal da Associação dos Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra (APEB/Coimbra). Luciana, no entanto, quer subir ainda mais degraus na política estudantil portuguesa e, por isso, é candidata à presidência da Apeb/Coimbra.

A Universidade de Coimbra é ainda a instituição de ensino com mais brasileiros no exterior. Por isso, a APEB/Coimbra é uma entidade respeitada no eixo universitário e também junto as demais instituições brasileiras no exterior. O jornalista mossoroense Carlos Guerra Júnior, conhecido em Portugal como "Mossoró", também concorre ao lado de Luciana Carmo, nas eleições que acontecem na segunda-feira (16), ao cargo de diretor de comunicação. Eles fazem parte da equipe Re-Evoluir, que concorre nas eleições da APEB e juntos conseguiram fazer várias ações em prol da comunidade brasileira em Portugal.

Luciana Carmo (à esquerda) foi uma das responsáveis por evento com presidenciável Ciro Gomes em Coimbra


"Estar na direção da APEB, possibilitou ver o quanto a Universidade de Coimbra é respeitada pelos brasileiros, que conhecem o sistema de ensino português. Com a forte colaboração do Carlos "Mossoró", conseguimos fazer atividades com os ex-ministros brasileiros José Eduardo Cardozo e Ciro Gomes, o humorista Gregório Duvivier, os músicos Adriana Calcanhotto, Chico César e Renan Inquérito, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, entre outros nomes de destaque. Quando eu passava pelas dificuldades na quebrada, jamais pensei que fosse estar com tanta gente de renome no país e no mundo em um só ano, tratando de igual para igual. Tudo isso, é claro, só foi possível, devido ao empenho das pessoas que formam a Re-Evoluir, já que antes disso a APEB não tinha tanto prestígio em seus 13 anos de história como tem agora", ressaltou Luciana Carmo.

A atuação na APEB, todavia, não se restringiu a organização de eventos. Apesar de ter conseguido o acesso na Universidade de Coimbra através de uma bolsa de estudos, ela afirma que participou ativamente da luta contra a diferença das mensalidades que são pagas entre os brasileiros e os portugueses.

"É um absurdo o que se passa aqui, em relação aos estudantes estrangeiros. Paga-se quase cinco vezes a mais se for brasileiro, em relação ao português. Enquanto eles pagam cerca de 150 euros por mês, o brasileiro paga 700 euros, mais de 2700 reais. Então, fizemos carta de repúdio, junto da companheira Déborah Andrade, que travou essa luta e publicitamos em vários espaços. Além disso, tivemos reunião com a embaixada brasileira em Portugal, cobrando um posicionamento", ressaltou.

Outras lutas que ela e os companheiros da Re-Evoluir travam é em prol do feminismo, contra o racismo e a xenofobia, a luta pela diversidade cultural, a equiparidade de direitos entre os brasileiros e portugueses. Além disso, eles lutam para eventos de consciência política e social, através da promoção de debates, saraus poéticos, eventos de hip hop e cursos de formação.

"As atividades são imensas, em prol da consciência política e social, mesmo estando distante, a luta nunca para, sobretudo devido ao golpe parlamentar que o Brasil passou recentemente. Não podemos silenciar e propomos várias atividades em relação a essa luta. Além disso, mesmo a distância, queremos preparar um terreno fértil, para que a comunidade brasileira em Coimbra ajude a encontrar uma solução para o caos político que o Brasil enfrenta", declarou Luciana.

A filósofa está em Coimbra há dois anos e foi inicialmente para Portugal através de uma bolsa do programa Santander Universidades, pela qual concorreu na Universidade Presbiteriana Mackenzie, universidade particular em São Paulo, na qual como bolsista PROUNI também é isenta de pagar as mensalidades, conquistada devido ao seu desempenho acadêmico. Ela lamenta, no entanto, que as dificuldades financeiras que ainda enfrenta não permitiram que ela trouxesse sua filha, de 12 anos, Melissa, para Coimbra.

"É o que mais aperta no peito. Apesar das vitórias já alcançadas, ainda não tenho uma estabilidade financeira. É sempre na luta, conseguindo algum trabalho temporário para sustentar-me aqui em Coimbra. Por isso, foi impossível trazer minha filha, mas falo todo dia com ela e está com a minha mãe", comentou a acadêmica de filosofia, que também é poeta. Ela é inclusive uma das finalistas da etapa regional de Coimbra no Poetry Slam. O Poetry Slam é um campeonato a nível mundial de poesia autoral, que envolve interpretação e qualidade textual. O vencedor de Coimbra irá representar a terceira maior cidade do país na final nacional, que ocorre entre 26 e 28 de outubro.

Ainda como gestora cultural, Luciana Carmo, redigiu projetos culturais aprovados em edital pela Reitoria da Universidade de Coimbra e que contam com o apoio institucional da Embaixada Brasileira em Portugal. Além de ter integrado como organizadora e coordenadora a Oficina de Experimentação Performática Linguística-Poética-Sonora C RI |OUL| AR e o jantar mestiço, eventos que integraram os Sons da Cidade 2017 - ação que celebra a inscrição da “Universidade de Coimbra, Alta e Sofia” na Lista de Patrimônio Mundial da UNESCO. Além disso, foi responsável para que a cantora Adriana Calcanhotto recebesse o título de madrinha e membro da Apeb.
 

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