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Professora viaja 52 km por dia e realiza sonho de se formar em Pedagogia pela Uern, aos 71 anos

Foto: A professora Maurina Maia, ao lado do filho Aldiclesio, em evento na Uern
27 Set
16:52 2018
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Da redação
WILLIAM ROBSON
Especial para o MOSSORÓ HOJE
 
O filho de Maurina Maria Maia expõe em suas redes sociais uma foto ao lado da mãe em que conta com muito orgulho o feito dela. Acabara de se formar em Pedagogia. Pode parecer uma coisa banal, mas, o detalhe está no fato de que Maurina conseguiu seu diploma aos 71 anos de idade e depois de atuar por 41 anos na educação de crianças. Maurina recebeu o MOSSORÓ HOJE para uma conversa, onde deu aulas de otimismo, vitalidade, gratidão e esperança.

Sua inclinação para o ensino está para ela como um dom e também como uma resposta a uma necessidade durante  sua infância. "Eu morava no sítio Mamueiro, mas nasci em Frutuoso Gomes, e para mim o estudo foi sempre algo muito difícil, porque eu precisava fazer um percurso diário de seis quilômetros entre o sítio e a cidade", relembra.
A distância também era recheada de obstáculos. Não havia asfalto e era preciso atravessar um rio seis vezes, além das dificuldades financeiras para custear um transporte para ela e mais sete irmãos. "Meu pai era muito pobre e não tinha condições de oferecer educação para todos nós", conta a recém-formada professora.

Sem uma estrutura escolar no sítio e com dificuldades de se locomover até a cidade, as perspectivas pareciam não ser das melhores. Dona Maurina contou que das suas irmãs, ela foi a que mais "chegou longe" nos estudos. As demais fizeram o antigo Mobral, um movimento de alfabetização do governo brasileiro, e aprenderam a escrever o próprio nome. Os irmãos conseguiram seguir um pouco mais e se alfabetizaram melhor.

"Acho que isso tem a ver com a minha vontade imensa de ser professora. Quando pequena, com uns oito anos, já queria estudar, mas não tinha condições", recorda.
Foi somente dois anos depois, aos 10, que Maurina teve contato com a primeira professora. Uma moça que foi convidada por seu pai para dar lições da cartilha do ABC e, à medida que ia aprendendo as letras, ela repassava para os seus coleguinhas. "Era um pouco da vocação, não era?",pergunta, entusiasmada.

As primas foram as suas primeiras "alunas", numa brincadeira de escola. Ela conta que não entendia exatamente como seria a profissão, mas gostava de ser chamada de "professora". Coincidências ou não, o tema de sua monografia defendida 61 anos depois destes momentos infantis é "A brincadeira como instrumento pedagógico", sob orientação da professora Maria Gorete Torres.

Maurina foi educada no período da palmatória, um instrumento que para ela intimidava a participação do aluno e o seu desenvolvimento na aprendizagem. "As crianças se sentiam tímidas, ameaçadas, não conseguiam nem falar em público. Tinham medo", conta.

Após a morte de sua mãe, Maurina passou a estudar "na cidade", em Frutuoso Gomes. Saiu do sítio e foi cursar a terceira série do equivalente ao Ensino Fundamental de hoje. "Não parei mais. Fiz o primário, o magistério que tive de fazer em Almino Afonso através do programa Logos 2, e fui trabalhar. Quer dizer, eu já trabalhava porque no meu sítio não tinha professora", explicou ela, que recebeu alunos da pré-escola até o segundo ano.

Seguiu neste ofício, casou, teve filhos e teve como maior missão educá-los e oferecer condições para que pudessem levar a vida com dignidade. Foi o momento que a obrigou a abdicar temporariamente dos estudos (não da escola, seu habitat natural). Quando encaminhou os filhos, decidiu voltar aos estudos. "Pensei comigo mesmo: Eu quero ser pedagoga, eu quero ser pedagoga", disse dona Maurina.

O desafio estava colocado. Enfrentar uma seleção e iniciar um sonho nos bancos universitários.  Não seria fácil para uma sexagenária. Mas, emanava de dona Maurina uma força de vontade extraordinária. As primeiras tentativas não surtiram o efeito desejado. Até que um dia, chegou o convite para se matricular no curso, mediante a análise  de uma banca e de currículo. "Aproveitei e disse que não iria desistir. Fiz o curso e hoje estou formada. Falta só receber o diploma", afirmou. O diploma deverá ser entregue no próximo dia 2 de outubro.

Ingressou no campus da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), em Patu. As aulas se estendiam até aos sábados, durante o dia todo, num percurso diário que a dona Maurina enfrentava de 52 quilômetros.

 

Diploma não é o começo, é o coroamento de dona Maurina

O diploma, para muitos, é o início da carreira. Para dona Maurina foi o coroamento de uma vida dedicada à educação. Por esta razão, foi algo que sempre perseguiu ao longo de sua vida.

Depois de lecionar no sítio o qual mantém suas raízes foi convencida a dar aulas na cidade. "Eu aceitei porque o que eu mais queria era ensinar. Tenho alunos que hoje estão fazendo medicina nos Estados Unidos.  Foram 41 anos e oito meses de sala de aula, mas no momento em que tive de escrever meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) optei por deixar de trabalhar, porque ainda tinha de estudar e cuidar do meu netinho. Era muita coisa. Então, eu me aposentei com perdas que acho que não vou recuperar nunca", afirmou a professora, que ainda tem mais cinco netos.

Hoje seus filhos seguiram o exemplo da mãe e estudaram. "Hoje todos têm estudo. Aqueles que não se formaram, tem pelo menos o ensino médio", diz, e rememora as dificuldades que seus irmãos tiveram para ter acesso à escola.

Agora, formada, aguarda a solenidade na Uern em Patu para a colação de grau e entrega dos diplomas. Por conta dos custos, não haverá a festa de formatura. Mas, o grupo conseguiu, através de rifas, financiar a placa que será descerrada na universidade.
 

"Quando a gente quer, a gente consegue"

O que leva uma professora que se dedicou por quatro décadas à educação e alfabetização de crianças, com um trabalho que lhe dá prazer, a voltar a estudar aos 66 anos? "É o querer. É o querer", responde. "Quando a gente quer, consegue. É não desistir, seguir em frente!".

Dona Maurina relembra que para realizar seu sonho de se formar em Pedagogia enfrentou muitas dificuldades.  "Ia para a faculdade de ônibus, mas aos sábados não tinha transporte. Uma amiga me deixava lá. Era um esforço", conta. "Por isso, quando a pessoa tem vontade e fé em Deus, consegue. Peço que não desista. Mesmo na minha idade, não me arrependo de ter conseguido agora. Eu poderia me arrepender se eu tivesse desistido".

Maurina costuma incentivar seus alunos a buscar seus sonhos. "A vontade, a fé e o prazer levam você chegar onde quiser. Todo mundo tem condições, mas é preciso focar", conclui.
 

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