COLUNA OPINIÃO
Por Jean Paul Terra Pres
A empresa que domina o fundo do oceano como nenhuma outra no mundo deve se converter em braço auxiliar de um setor que já é plenamente capitalizado e competitivo?
A Petrobras foi construída para abrir fronteiras tecnológicas e operacionais onde o investimento privado, por natureza, hesita: águas ultraprofundas, pré-sal, soluções avançadas de perfuração, produção, reinjeção e processamento que hoje são referência global.
Esse é o DNA da companhia.
No entanto, chama atenção o deslocamento recente da narrativa institucional para áreas como fertilizantes, voltadas a suprir um setor que dispõe de capital, acesso a mercados e histórico de decisões orientadas por preço internacional, não por compromisso estrutural com a produção doméstica.
Ao mesmo tempo, foi necessária uma nova crise global do petróleo para recolocar na agenda temas centrais: recomposição do parque de refino, reentrada na distribuição e a defesa de inovações como o coprocessamento de óleos vegetais nas refinarias, tecnologia em que a Petrobras detém vantagem clara.
Enquanto isso, permanecem subexploradas agendas nas quais a companhia possui diferencial competitivo real e papel estratégico insubstituível: eólica offshore, eletromobilidade, combustíveis sustentáveis para aviação e navegação, armazenamento de energia.
Não se trata de escolher entre petróleo e futuro. Trata-se de alocar capital, tecnologia e capacidade institucional onde uma estatal de excelência técnica efetivamente agrega valor ao país.
Há uma diferença clara entre liderar a abertura de novas fronteiras e assumir riscos que o setor privado não deseja correr, e deslocar-se para áreas onde esse mesmo setor já opera com escala, eficiência e acesso a financiamento.
A experiência brasileira recomenda cautela. Quando ciclos de preço mudam, a lógica de mercado se impõe rapidamente. Não seria surpreendente que, uma vez operacionais as plantas de fertilizantes, surjam pressões por redução de preços, questionamentos concorrenciais e, em seguida, o retorno do discurso pela privatização desses ativos.
A história recente sugere que esse movimento não é hipotético. É recorrente.