Aos 59 anos, a enfermeira Iraídes Souza tornou-se um exemplo de ressignificação profissional após perder parte do braço em um acidente de trânsito, ocorrido há 18 anos. “Estávamos voltando de uma transferência de paciente para Natal quando uma carreta bateu na nossa viatura do SAMU. O carro derrapou na pista; toda a lateral do veículo foi destruída junto com meu braço”, relembra.
O acidente aconteceu na BR-304, na altura da cidade de Lajes. Dentro da ambulância, ela estava com um motorista e um médico. “Eu sempre digo que perdi apenas um braço porque poderia ter perdido a vida. Foi coisa de Deus. Eu estava sentada em um banco em frente à maca – onde fica o paciente na ambulância – e o médico pediu para trocar de lugar; eu sentei na frente, junto com o motorista, e ele em outra poltrona. Na hora da colisão, meu braço direito ficou junto à janela do carro, justamente do lado que derrapou no asfalto”.
“Quando o carro parou, percebi um jato de sangue muito forte escorrendo pelo meu braço. Na hora, realizei uma manobra com um jaleco para estancar o vaso, pois eu poderia entrar em choque e morrer enquanto o socorro não chegava”.
Na época, a profissional tinha 41 anos e trabalhava há 18 anos como enfermeira de UTI no Hospital Regional Tarcísio Maia, no Hospital Wilson Rosado e também no SAMU, que tinha apenas três anos de funcionamento em Mossoró. “Para mim, foi muito difícil; eu era jovem e tinha sonhos, mas, ao mesmo tempo, fiquei muito segura. Sabia que seria difícil, mas que eu poderia continuar fazendo o meu trabalho. O segredo da minha profissão está na mente”.
Dezoito anos se passaram e Iraídes continua trabalhando como enfermeira e desfrutando da vida. “Faço tudo: dirijo, pratico esportes, trabalho e resolvo tudo sozinha. Na primeira vez que fui a um restaurante depois do acidente, quando chegaram a pizza e os talheres, meu marido e meus filhos ficaram apreensivos, mas pegamos um lencinho, comemos com as mãos e deu tudo certo”.
Hoje, no SAMU, a enfermeira usa sua experiência para ensinar novos profissionais sobre a condução das atividades, orientando enfermeiros, técnicos e telefonistas sobre como proceder no atendimento. “A oportunidade que tive precisa ser repassada. Nosso trabalho é salvar vidas e continuo fazendo isso com o conhecimento que transmito aos meus colegas”.
A diretora da unidade, Leila Moura, conta que Iraídes é considerada uma referência: “Quando cheguei aqui, em 2015, ela já se destacava. Para nós, é um orgulho tê-la aqui sempre à disposição, somando, buscando melhorias e orientando a regulação médica. Para mim, ela é um pilar por meio do qual conseguimos dar um retorno à população através dessa educação continuada”.
Após o acidente, Iraídes não se aposentou por invalidez nem foi readaptada. Até hoje, luta na justiça para ter acesso a uma prótese mecânica que possibilite mover os dedos. A demora na aquisição não representou problemas: “Eu não sinto falta do braço, pois consigo fazer tudo; a ausência dele não me impossibilitou de nada”.
Um dos projetos desenvolvidos por ela foi o Samuzinho, que consiste em orientar crianças nas escolas a agirem em casos de extrema necessidade, ensinando manobras de desengasgo e cuidados básicos. “Já temos cerca de 40 alunos; é um projeto muito bacana que está sendo replicado em todo o país”, finaliza.