05 ABR 2020 | ATUALIZADO 17:23
MOSSORÓ
POR KATHARINA GURGEL
26/02/2020 12:01
Atualizado
26/02/2020 12:06

A história da mulher que criou os filhos catando plástico, por Katharina Gurgel

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Em mais uma crônica do dia a dia, Katharina Gurgel conta a história de Maria Damiana da Silva, 53 anos. Natural de Baraúna, ela vive em Mossoró há anos, e sobrevive com duzentos reais do bolsa família, uma faxina de cinquenta reais por mês e a venda da reciclagem dos plásticos. Damiana mora na estrada da raiz e vai empurrando um carrinho, quase todos os sábados e feriados para apanhar plástico reciclável no Nova Betânia.
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FOTO: KATHARINA GURGEL

Ela estava sentada na calçada, embaixo de uma árvore, numa das esquinas de Nova Betânia, bairro nobre daqui de Mossoró. Vizinho a ela, um carrinho improvisado de madeira e ferro, com um saco de ráfia bem cheio de plástico dentro. Era um sábado e eu estava saindo do supermercado, quando fiz a curva para entrar na minha rua e vi aquela cena.

Era uma senhora bem magra, calmamente sentada, observando o tempo passar como quem espera um filho chegar. Usava um chapéu lilás, com abas largas - acho que para se proteger do sol, que naquele dia estava insistentemente forte.

Resolvi estacionar para conversar um pouco.

- Bom dia!

- Bom dia! - Respondeu com uma voz baixinha, sem muita força.

- O que tanto a senhora leva nesse carrinho?

- Plástico, que eu vendo pra reciclagem.

- Eu sempre vejo a senhora por aqui. Essa área é boa para arrecadar os plásticos então?

- É sim, sempre tem muita coisa. Como eu pego garrafas pets, embalagens, as casas por aqui conseguem usar muito mais, criar mais material, entende? Tem muita gente que já me conhece e até separa pra mim.

Maria Damiana da Silva, 53 anos, natural de Baraúnas, mas já está em Mossoró há tanto tempo que nem lembra mais. Mora na estrada da raiz. Vem de lá, empurrando esse carrinho, quase todos os sábados e feriados para essas bandas de cá.

Vive com duzentos reais do bolsa família, uma faxina de cinquenta reais por mês e a venda da reciclagem dos plásticos.

- Dona Damiana, e compram por quanto, o plástico?

- O quilo é quarenta centavos. Acho que esse apurado de hoje só dá uns nove reais. Garrafa pet não pesa muito não, aí o apurado fica pouco!

Damiana teve nove filhos, mas moram com ela quatro, além de um genro, uma nora e um neto recém nascido. É viúva há muitos anos.

Mora numa casa de 2 vãos.

Os filhos fazem "bico" pra ajudar no orçamento da casa, mas queriam mesmo era um emprego formal.

- Os meus filhos já colocaram currículos em vários lugares e estão aguardando aparecer um trabalho. Eu não reclamo nunca com Deus, nunca. Deus é bom e sempre manda alguma coisa na hora que é pra mandar.

- Mas deve ser puxado pra senhora, hein?

- Pois é, eu já até me acostumei, mas tem dias que a saúde não está muito boa, aí eu fico em casa.

- A senhora tem algum problema de saúde?

- Tenho uma tuberculose que não fica boa nunca. Às vezes escarro sangue. Vou no posto, tomo os remédios que o doutor manda, mas não fico boa de vez, não.

Damiana me contou que já trabalhou na casa de várias pessoas, mas que a experiência não tinha sido muito boa.

- Teve uma casa que eu trabalhei, que a dona colocava dinheiro em baixo na cama, perto do armário e pedia para eu ir limpar lá, só para ver se eu ia mexer no dinheiro. Minha avó sempre me ensinou a devolver tudo o que a gente achasse e que não fosse nosso. Eu achava muito humilhante a mulher ficar colocando o dinheiro, desconfiando de mim. Em outra casa, a patroa não separava almoço para mim e eu tinha que comer farofa. Só farofa e água. Tão ruim ver a comida toda separada. Aí eu decidi que era melhor ir trabalhar com o plástico na rua do que sofrer essas humilhações. Tá dando certo, pelo menos consegui criar os filhos.

- Damiana, obrigada por dividir sua história comigo. Vou separar umas coisas para te entregar também. Podemos marcar sábado que vem aqui, neste mesmo lugar?

- Podemos sim, estarei aqui aguardando a senhora. Obrigada!

- Pronto, combinado então. Damiana, eu que agradeço.


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