08 AGO 2020 | ATUALIZADO 20:10
Entrevista
Da redação
26/06/2015 20:48
Atualizado
13/12/2018 02:32

Jogador no Brasil não tem vida , diz Márcio Mossoró, que joga na Turquia

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Além de apontar uma diferença muito grande do tratamento dos clubes europeus com os jogadores, Márcio Mossoró fala também como foi o início da carreira, alimentação, religião, cultura, família e se revela assustado com nível de violência no Brasil. "Meu filho está com muito medo de viver no Brasil"
Imagem 1 -   Jogador no Brasil não tem vida , diz Márcio Mossoró, que joga na Turquia
Valéria Lima

Em A ENTREVISTA, o jogador de futebol profissional Márcio Mossoró (José Márcio da Costa), de 31 anos, nascido e criado no bairro Alto do Xerém (hoje Belo Horizontem), em Mossoró, e que hoje está jogando na Turquia, fala sobre as dificuldades para se firmar no início da carreira, comentou sobre a diferença entre jogar em clubes no Brasil e na Europa, sobre religião, família e seus planos para o futuro.

Márcio Mossoró lembra do sucesso que fez jogando pelo Paulista de Jundiaí, de São Paulo, onde ganhou o título da Copa do Brasil. Este título o projetou para jogar no Internacional e depois foi jogar o campeonato Português defendendo as cores do time da Ilha da Madeira, o Marítimo. Em seguida foi vendido pelo Internacional para o Braga, onde também fez uma campanha espetacular. Sua passagem pelo Emirados Árabes e sua chegada a um dos principais clubes da Turquia.

Inclusive onde pretende continuar jogando em clubes da Europa. Elogia as condições de trabalho dos clubes europeus e diz que no Brasil o jogador de futebol não tem vida social, não pode viver, não tem como viajar a passeio com a família. "Lá agente pode sair na rua, passear", diz Márcio Mossoró em A ENTREVISTA.

Segue-a.

Onde começou a jogar?

Comecei na base do Calouros do Ar, com Silva, e depois na base do Ferroviário, de Carneiro. Depois fui para o Ferroviário de Fortaleza no início de 2000. Até o sub 15 eu joguei no Ferroviário em Mossoró. Era pequenino mesmo. Cheguei a jogar no Nogueirão, pelo Ferroviário e pelo Calouros do Ar. Naquela época era só a capinha do Batmam. Só queria saber de jogar bola, só queria saber de correr atrás de bola e alimentação era zero.

Como conciliava jogar bola e a necessidade de estudar?


Estudei pouco aqui. Estudei até a sexta série aqui. Meu objetivo era jogar bola, observe que era errado o que eu fazia. Não era certo. Então, eu fiz tudo certinho até a quinta série, pois era meu objetivo jogar os Jerns. Daí eu reprovei dois anos na quinta série. Aí eu passei para a sexta série e fui embora para Fortaleza. Estudei em Fortaleza um ano. Mas onde eu ia procurava estudar. Não parava. Depois fui para São Paulo e lá eu fiz supletivo. Como eu já estava no profissional não dava para conciliar uma coisa com outra. Não dava para estudar numa escola normal. Tinha que ser um pouco mais acelerado. Estudei seis meses no supletivo e depois passei para o segundo grau.

Como foi sua transferência de Mossoró para Fortaleza? Quem te levou?

Fui para lá, morei lá (Fortaleza) durante um ano com Paulo André, que hoje é auxiliar do Baraúnas. Depois, em 2001, foi criado um time por empresários, em Guararapes, para disputar a Copa Rio. Paulo André era treinador numa categoria inferior à minha em Fortaleza. O treinador da categoria que eu jogava no Ceará era o Edmundo, um cara que me ajudou muito no futebol no Brasil. Ele foi para este time lá no Rio de Janeiro e me levou. Fizemos uma boa campanha na Copa Rio. Envolvia empresários e muitas coisas. Daí eu fui para São Paulo, para outro time de empresários. Em São Paulo eu fiquei mesmo foi rodando, desempregado. Eu joguei um ano no Jales, que era da 4ª ou 5ª divisão. Foi assim até o final de 2002. Foi um tempo bem difícil. Complicado. Eu vivi isto, mas eu queria jogar bola. Era algo novo para mim, era diversão, mas era algo que eu sonhava, que eu queria. Eu sempre fiquei focado em jogar, ser profissional. Nunca pensei em desistir e voltar para casa. Não ia dormir pensando que no dia seguinte não ia dá certo. Eu ia dormir como um dia normal. Se não desse certo, começava tudo de novo. Havia muitas promessas, envolvimento de empresários, todos buscando uns ganhar e outros jogar bola.

Mas antes de deixar sua marca em São Paulo, você esteve em Santa Catarina. Como foi esta transferência?

No final de 2002 disputei o campeonato de 2ª divisão em Santa Catarina. Era um time de empresários, que havia muitas promessas. Aí um cara me levou para o Cruzeiro, para fazer um teste lá. Fiquei uma semana no Cruzeiro e não deu certo. Aí voltei para o mesmo time em Santa Catarina. Disputei a segunda divisão e aí foi quando o mesmo treinador que me levou para o Rio de Janeiro me levou para disputar o sub 20 do Paulista. Nesta época já estava com 19 anos. Nesta idade, eu ou era profissional ou nada. Foi aí que o mesmo treinador que havia jogado com ele em Fortaleza, o Edmundo, assinou com o Paulista de Jundiaí, para jogar o sub 20, e me levou. Isto foi no final de 2002. Estava discutindo se participava da Taça de São Paulo ou não. Daí teve um torneio antes. Como o treinador já me conhecia, ele falou que eu devia entrar em campo e fazer o que eu sabia. Foram três ou quatro jogos e eu me destaquei. Fomos vice-campeão. Foi aí que tudo começou. Daí assinei contrato e passei logo em seguida para o profissional. Fiquei dois anos e meio no Paulista de Jundiaí. Antes de vestir a camisa do time principal em 2004, joguei no juniores em 2003. Fomos o vice-campeão paulista. Daí joguei a Copa São Paulo e também fui muito bem.

Você chegou no time principal e foi logo jogando, logo titular?

Teve o primeiro ano de certeza e dúvidas. Jogava um jogo, ficava fora em outro. Entrava durante a partida. Foi um período de firmação na equipe, de busca do meu espaço. E este espaço eu conquistei no segundo semestre de 2004, jogando o Brasileirão. Em 2005, foi o ano chave. Fomos campeões da Copa do Brasil. Estive lá neste final de semana para comemorar os dez anos do título. Depois no dia 2 de setembro eu assinei com o Internacional. No internacional eu já cheguei jogando. Foi no início de 2005 e início de 2006 sempre jogando. Daí veio as lesões no ‘pubes’ no ‘adutor’. Já perto do Mundial Interclubes. Eu fiz a cirurgia e não me recuperei a tempo para ir para o mundial. Mas joguei a Libertadores. Depois do Mundial, teve a final da Supercopa, que foi em 2007.

Aí houve sua transferência do Brasil para a Ilha da Madeira, em Portugal?

Teve um ano muito bom, no final de 2007 para 2008. Passei por uma fase de adaptação. Ainda sentindo algumas dores. No início de 2008, consegui me destacar. Já não sentia dores. Foi muito bom. Fui muito bem e foi quando o Braga, de Portugal, comprou meu passe ao Internacional. O internacional havia feito um empréstimo ao Marítimo.

A partir de sua chegada ao Braga, Márcio Mossoró, você passou a conhecer dois mundos do futebol: o Brasileiro e o europeu. Comente um pouco.

É muito diferente. Não é todo empresário que chega lá e faz um negócio, que chega lá e entra dentro do clube para fazer interferências. Os empresários visam muito o dinheiro. As negociações lá é tudo às claras. O presidente do Clube senta à mesa com os jogadores e conversa sobre tudo, com transparência e respeito ao profissional. Isto facilitou muito a minha vida profissional. É outro jeito de fazer futebol funcionar. Quando eu cheguei no Braga, o suporte que eles dão fora de campo, não tinha como não render dentro de campo. Por isto eu tive o sucesso todo defendendo as cores do Braga, que figurava entre os intermediários lá nos campeonatos. Eu cheguei ao Braga com 24 anos como o jogador mais caro. Foi o treinador Jorge de Jesus que me levou. Ele tinha muita bagagem e não me colocava para jogar sempre. Era um jogo ou outro. Depois este treinador saiu e veio outro treinador, o Domingos Paciência. No início chegaram a falar que eu iria sair, mas ainda tinha contrato assinado e o presidente do clube conversou comigo, colocando que eu iria continuar, me tranquilizando.  Aí as coisas escancararam. Foi onde eu tive, digamos assim, o melhor ano de minha carreira. Conseguimos o vice-campeonato português. Dos 30 jogos do campeonato, eu joguei 25. E não joguei os outros cinco, porque foi nesta época que quebrei minha perna. Este ano foi muito bom, foi a primeira vez que o Braga disputou a Liga dos Campeões. Muitas coisas ficaram marcados. Eu fui escolhido entre os dez jogadores do campeonato e mesmo ficando fora dos 5 jogos finais, eu fiquei em sétimo.

Nesta época aconteceu que você foi suspenso, o que não é coisa frequente na sua carreira profissional, por ser um atleta calmo, tranquilo em campo. O que aconteceu?

Arrumaram uma suspensão para mim de três jogos que até hoje eu não sei o porquê. Havia uma conversa na época que o Benfica havia investido muito, tinha no elenco Aimar, Saviola, Davi Luiz, Luizão, De Maria... Eles tinha um time muito forte. Um investimento muito alto. Se perdesse o título, era complicado para eles que haviam feito aquele investimento. Chegaram a falar que eu ia sair do Braga. Mas Deus quis que não. Pediram que tivesse paciência, com minha recuperação, pois havia sido muito séria. Que não era fácil. Quebrou meu perônio e rompeu os ligamentos do tornozelo. Fiquei parado uns seis meses para recuperar e ficar à vontade para voltar a jogar bem.

Você saiu de Mossoró e foi para Fortaleza. Depois foi para o Rio de Janeiro e de lá para São Paulo. Depois foi para Santa Catarina e depois retornou para São Paulo, onde fez uma bela exibição pelo Paulista de Jundiaí. Depois desembarcou no Internacional, também no Brasil. Você de certa maneira conheceu um pouco do trato dos clubes com o jogador no Brasil e hoje conhece bem como os clubes europeus tratam seus atletas. Fale sobre esta diferença.

É de time para time. O Marítimo não havia uma cobrança grande. Eles sabem que conquistar o título lá é impossível. O nosso objetivo era permanecer no campeonato e se as coisas fossem bem como foram disputar uma vaga para ir para Liga Europa. Em termos de estrutura, de torcida, é totalmente diferente do Brasil. Lá eles têm a cultura de ter paciência. Sobre a alimentação, no Internacional já recebemos conhecimentos de como se alimentar antes e pós jogos, para se recuperar rápido e bem para os jogos. No Brasil se joga duas vezes por semana, nos domingos e quartas. Lá no Marítimo era menos. Uma vez por semana. Nos clubes grandes da Europa, como Real Madri e Barcelona, eles jogam mais. A adaptação demorou um pouco, a cultura tática de jogo lá na Europa é muito diferente do Brasil. O Brasil está muito, muito longe, continua longe... Na seleção Brasileira os jogadores jogam todos fora do País, mas pelo fato de o treinador não ter passagens pela Europa, não ter treinado times europeus, o Brasil está muito longe dos times de lá. Você vê quando joga uma Espanha, Portugal, Itália, eles não têm a mesma qualidade que tem o time brasileiro, mas em termos de organização é de dez a zero para os caras. Os times jogam mais compactos.  Aí onde entra a parte dos descansos, dos treinamentos... Lá se treina um período e o restante do dia é folga. Eu jogava no Internacional, mesmo no dia de jogos, tinha treino. Isto é muito cansativo. Isto é uma coisa que eles estudam lá e fazem isto muito bem e parte já está chegando aqui no Brasil, a parte fisiológica, de ver como o jogador está reagindo, se sentindo, se desenvolvendo, observando e apontando o jogador que está mais preparado, apontando qual esforço de treino o jogador deve fazer. Eu não posso treinar no mesmo ritmo de um menino de 20 anos. Então, por isto eu falo que quando cheguei a Portugal eu treinava pouco. Eu sentia falta de treinamentos, porque meu corpo estava habituado com muitos treinos. Já houve eu já sinto falta de treinar menos. Quando eu cheguei lá na Turquia, meu Deus, o treinamento era mais puxado do que nos sete anos antes que eu passei na Europa. Eu fiquei seis anos em Marítimo/Braga e um na Arábia, que o treino era também bem tranquilo, uma hora, uma hora e meia no máximo. Daí tive lesões musculares, estava sempre mais cansado. Aos poucos foram me conhecendo e ajustaram meus treinamentos e hoje estou muito bem. Por isto que eu falo que tem em determinadas semanas seu corpo não está preparado para fazer uma carga pesada de treino. Se observar esta sequência de jogos no Brasil, não tem como o time treinar. O negócio é você está bem psicologicamente...

 

Como é a viver o dia a dia em países como Portugal, depois na Arábia e agora na Turquia?

A cultura de vida é muito diferente de uma país para outro. Na Arábia, a cultura é realmente radical. Na Europa, minha esposa tinha acesso a tudo. Saía sozinha para fazer o que precisava ser feito. Mas na Arábia, não. Precisava andar de burca, não podia andar de carro. Se andava só na rua, era meio constrangedor para ela. Tinha sempre uma coisa ou outra que incomodava. Depois descemos um pouco para a Turquia que é um pessoal uma boa parte muçulmana, mas tem a parte europeia, que é onde vivemos. Então lá é supertranquilo. Lá eles se dividem em dois continentes: Ásia e Europa. Eu vivo na Europa, um lugar muito, muito bom de viver. Minha esposa já se adaptou bem. Meu filho já se adaptou muito bem. Estuda Inglês e Turco e isto está sendo muito bom para a gente. Não tem comparação. Lógico que sentimos falta do Brasil, do calor, dos amigos, da família, mas que vai para fora e lá vive muito bem, não pensa em votar mais.

 

A saúde da pessoa depende de como se alimenta e de como pratica exercícios. Márcio, você sente falta do feijão brasileiro?


Religião...

Eu sou evangélico. Meu irmão Marquinhos congregava na Cristã Evangélica, no Centro de Mossoró. Depois levou meu irmão Zé maria, todos nós congregamos muito tempo lá. Então, sinto muita falta. Tanto na Arábia quanto em Portugal. Na Arábia era muito difícil. Era eu, minha esposa, meu filho, e o Marquinhos que vivia com a gente lá. A gente mesmo pegava a Bíblia, teve um tempo que teve até um desafio bíblico no Facebook onde você postava um vídeo, então a gente se comunicava e fazia as coisas assim, porque não poderia ser jamais uma coisa aberta. Lá eles são muçulmanos e muçulmanos. Não existe outra religião. A nossa congregação era somente em casa, com a bíblia, vendo culto online...

Na Turquia?

Há dez anos quando sua carreira decolou não havia esta plataforma de mídia (internet) que permitia conferências online. As conversas eram mais distantes. As redes sociais facilitaram a convivência com sua família, reduzindo a saudade de casa?

Facilitou muito. Sempre fui muito ligado com o povo de casa. Mas depois desta onda Whatssap, Facebook, tem o Skype, e outras, fiquei muito próximo. São vários grupos, não só com o povo de casa, mas também com os amigos. Conversamos muito. Eu vou dizer: eu sinto falta de está aqui, sinto, mas fico melhor quando estou lá, porque eu estando lá eu vou está fazendo algo muito bom para eles, porque eles precisam de mim. Eles sabem que tudo aquilo que queremos e podemos ter vem do trabalho. Não tem como está aqui em Mossoró e ter o retorno que temos quando estamos fora. Minha família é muito grande e eu sei a importância que eu tenho para eles e isto me motiva mais para que eu possa cada vez mais ter forças para treinar e atuar bem. Eu estando bem eu seu que eles vão está bem. Agora a gente faz grupos, a gente tem uns cem grupos aí de família, de amigos, estamos sempre falando, fazendo vídeo, se vendo, falando e assim o tempo passa mais rápido e quando menos espera a gente já está aqui de férias para aproveitar, para descansar, aproveitando este tempo.

Já está fazendo seu caminho de volta para o Brasil ou pretende morar no exterior quando se aposentar do futebol daqui há uns seis ou sete anos?


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