04 AGO 2020 | ATUALIZADO 22:17
SAÚDE
ANNA PAULA BRITO
05/12/2019 12:38
Atualizado
05/12/2019 12:52

Doação de órgãos: número de doações ainda é muito baixo em Mossoró

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Apesar de ser um ato de amor e que pode salvar inúmeras vidas, a falta de informação ainda faz com que muitas famílias não autorizem a doação de órgãos dos seus familiares que tiveram morte encefálica. ; conheça mais sobre o assunto.
Imagem 1 -  No Hospital Regional Tarcísio Maia, até novembro de 2019, 30 pacientes foram considerados potenciais doadores, mas apenas 6 famílias autorizaram a doação.
No Hospital Regional Tarcísio Maia, até novembro de 2019, 30 pacientes foram considerados potenciais doadores, mas apenas 6 famílias autorizaram a doação.
FOTO: CEDIDA

A notícia sobre a doação dos órgãos do apresentador Augusto Liberato, Gugu, que teve morte cerebral detectada após sofre uma queda em sua casa no Estados Unidos, aumentou o debate acerca do tema no Brasil.

Apesar da importância desse ato, muitas pessoas ainda não têm conhecimento sobre doação de órgãos e o número dessas doações autorizadas pelas famílias ainda é muito baixo.

O MOSSORÓ HOJE entrou em contato com o cardiologista Dr. Fernando Albuerne, responsável pela Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante do Hospital Regional Tarcísio Maia (CIHDOTT-HRTM), que falou um pouco sobre as doações realizadas na cidade de Mossoró.

Até o mês de novembro de 2019, somente no HRTM, foram encontrados 30 potenciais doadores, que são pacientes diagnosticados com morte cerebral. No entanto, deste total, apenas 6 famílias autorizaram a doação.

Nos anos de 2017 e 2018 o número de doadores em potencial ficou em 39, enquanto as autorizações para doação se mantiveram em apenas 6.

O Dr. Fernando explicou que a doação de órgãos só pode ser autorizada pela família, pelos parentes mais próximos, “então é de extrema importância que aquele cidadão que tem intenção de ser um doador, mantenha esse diálogo com a família e esterne esse desejo ainda em vida”.

É importante lembrar que no Brasil não existe uma legislação específica que permita a auto-inclusão como doador. No caso de o potencial doador não possuir parentes próximos que possam autorizar a doação, a captação dos órgãos não pode ser realizada.


COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO

O Dr. Fernando Albuerne explicou que quando há a suspeita da morte encefálica de um paciente, os atendentes responsáveis pelos cuidados àquele paciente deve comunicar o fato ao CIHDOTT.

A partir deste momento é iniciada a realização de diversos procedimentos e exames para a confirmação oficial do diagnóstico, conhecidos mundialmente como Escala de Coma de Glasgow (ECG).

A escala considera três fatores principais e determina uma pontuação de acordo com o nível de consciência apontada em cada um desses casos (espontaneamente ou através de estímulo).

São eles: Abertura ocular (incluindo a reatividade pupilar), Resposta verbal e Melhor resposta motora. Quando não há resposta de nenhum desse fatos, os médico começam a suspeitar que houve morte cerebral.

“Claro que são feitos diversos exames laboratoriais para determinar se não há nenhuma outra doença pré-existente que esteja impedido essa reação, como uma diabetes, por exemplo. Quando os exames mostram que não há nenhuma doença, então, provavelmente foi uma lesão cerebral mesmo”, disse Albuerne.

A partir deste momento é chamado um médico especialista em avaliar coma. Este profissional vai realizar uma nova bateria de exames para observar se há alguma reação do paciente. Em caso negativo, é concluído o primeiro exame sugestivo de morte encefálica.

Um segundo especialista é convocado para realizar os mesmo exames. Não obtendo resposta novamente, o paciente é submetido a um exame de imagem para analisar as reações do cérebro.

“Aqui no hospital nós utilizamos o eletroencefalograma, que é um dos exames aceitos na comunidade científica. O equipamento passa o período de uma hora analisando o cérebro do paciente. Se dentro desse período não foi registrado nenhum tipo de reação, então um terceiro profissional realiza a leitura do exame e, só então é oficialmente detectado que houve morte cerebral” explicou o médico.


O CONTATO COM O FAMILIARES

Após detectada oficialmente a morte encefálica a equipe do CIHDOTT entra em contato com a família para explicar os motivos que levaram o paciente a morte e é apresentado todos os exames que foram feitos para que se tenha chegado ao diagnóstico.

“Nós somos muito transparentes aqui. Nós mostramos todo os prontuários e exames, inclusive fazemos a entrevista em uma sala reservada, onde a família pode ficar a vontade para fazer perguntas, ler os prontuários, pode, inclusive, trazer um médico ligado à ela para ver todos os procedimentos feitos. Tem que ser tudo transparente para que a família possa entender”.

Apesar do momento de dor, o médico explica que aquele é o único momento que eles têm para perguntar aos familiares se desejam realizar a doação, visto que o tempo para a conservação dos órgãos após a morte cerebral é curto.

A partir deste momento a família tem um tempo para decidir, conversar com outros familiares e tomar uma decisão.

Dr. Fernando Albuerne explica que não há pressão neste momento e que a família tem total liberdade para decidir por realizar ou não a doação.

“A doação é um ato de amor, não pode ser um ato forçado. Aqui na nossa equipe nós nunca insistimos na doação. Nós explicamos a situação e saímos do local, deixando a família a vontade para tomar uma decisão. Em caso de decisão pela doação, assinamos um termo junto a família para comprovação, inclusive com a assinatura de testemunhas, para a partir desse momento efetuarmos a doação.


 

A DOAÇÃO

A partir do momento em que a doação foi autorizada, nós enviamos todas as informações do doador à central nacional, localizada em Brasília, que vai fazer a busca por pessoas compatíveis e que tenham condições de receber aqueles órgãos. A busca é feita em todo o país.

É importante lembrar que, apesar de existir uma fila para doações, a distância entre doador e receptor também conta na hora do envio do órgão.

“Por exemplo, um coração deve ser enviado em um período de 4h, então é muito mais viável, por uma questão de tempo, você enviá-lo de Mossoró para Fortaleza, do que para o Rio Grande do Sul, por exemplo, porque a probabilidade desse órgão não sobreviver a distância é maior”, explicou.

Em Mossoró são realizadas captações de coração, córneas, rins e fígado. Nesse caso, é possível ajudar até 6 pessoas. Em locais onde há mais condições de captar outros órgãos, é possível salvar até 50 pessoas, como foi o caso do apresentador Augusto Liberato.

O Albuerne lembra que após a captação dos órgão o hospital tem a obrigação de entregar a família o corpo do paciente em perfeito estado para a realização do velório, tornando imperceptível a doação.


TRANSPLANTADOS

O MOSSORÓ HOJE entrou em contato com dois paciente transplantados da cidade de Mossoró. Clara Regina, de 28 anos, e Geraldo de Oliveira, de 61 anos, foram salvos graças a generosidade dos familiares de doadores.

Clara, contou que descobriu um problema renal com 17 anos e perdeu uma parte da adolescência fazendo tratamento para o problema.

Ela conta que a doação deu uma nova oportunidade dela viver com saúde e aproveitar a vida de uma forma mais tranquila.

“Quando o transplante apareceu na minha vida foi uma oportunidade de eu ter um outro estilo de vida, de poder aproveitar a minha vida da melhor forma que eu pudesse. Foi uma vitória muito grande e eu sou grata, primeiramente, ao doador que se disponibilizou a doar seus órgãos, e depois à família que, mesmo em meio a esse momento de dor, teve um lindo ato de fazer a doação”.

Hoje Clara tem 8 anos de transplantada e viver muito bem. Ela diz ser grata a Deus por essas pessoas terem surgido na vida dela e possibilitado a ela ter uma nova viva.

Também transplantando há 8 anos, Seu Geraldo, conta que teve problemas com álcool e após um longo tratamento para deixar de beber, conseguiu se curar do alcoolismo.

Contudo, após o tratamento, descobriu que o seu fígado havia sido afetado pela bebida e que precisaria passar por um transplante para sobreviver.

“Eu passei dois meses na fila do transplante, em Fortaleza. Após esse período eu recebi a notícia que ia receber um novo fígado. Foram 6 horas de cirurgia que correu muito bem. Hoje eu levo uma vida normal, como de tudo, vivo uma vida muito saudável e sou muito feliz. A todo momento só tenho a agradecer ao doador por ter me proporcionado essa nova vida”.


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