14 JUL 2020 | ATUALIZADO 14:50
ESTADO
29/06/2020 18:21
Atualizado
29/06/2020 18:23

“A correria não foi para nos amparar, foi para se afastarem da sala”

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Jovem escreve carta aberta com relato sobre os dias que passou com avó internada em hospital e tratamento que a mesma sofreu após contrair a Covid-19 local, o medo da contaminação, o despreparo das equipes de saúde, o preconceito e o tratamento dado a uma idosa diagnosticada com a doença. Dona Iolanda Torres foi a primeira vítima da Covid-19 em São Miguel, no RN; confira o relato.
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FOTO: CEDIDA

São Miguel/RN, 28 de junho de 2020

Carta a COVID – 19

Por Aline Torres

Na noite da segunda feira, dia 22/06, eu me preparava para dormir com minha vovó no hospital da cidade onde já estávamos (eu, minha irmã e dois tios) revezando os cuidados com ela - que já estava internada desde o dia 17/06 por complicações cardíacas e renais.

Pouco tempo antes de eu sair de casa minha irmã me liga e diz que foi solicitada a transferência da nossa avó para a cidade de Pau dos Ferros, para o Hospital Regional Dr. Cleodon Carlos de Andrade.

Começava aí um misto de sentimentos: medo, devido a situação em que vivemos no país - ainda mais por ela ser uma paciente de alto risco para a Covid-19 - e incertezas se seria essa a coisa certa a se fazer.

Não existia, porém, muita escolha diante do sistema de saúde fragilizado da cidade de São Miguel, onde não havia o suporte necessário para ela diante da gravidade do seu estado de saúde. Contudo, veio a esperança de que estávamos fazendo o melhor para ela, de que poderíamos contar com um tratamento mais completo e específico.

Chegando em PDF a colocaram na chamada sala vermelha, na urgência. Estabilizaram a situação com maquinários que monitoravam seus sinais vitais, medicamentos, avaliação de vários médicos, clínicos, intensivistas de plantão.

No segundo dia foi solicitado pelo intensivista a transferência dela para UTI. Quando se fala em UTI o medo é um dos primeiros sentimentos que vem à cabeça, mas sabíamos que era o melhor para ela naquele momento. Porém, no nosso país, a calamidade na saúde é cruel. Ela não foi para UTI imediatamente como seria o correto, esperávamos por uma vaga.

Se seguiram os dias com mais solicitações de UTI, nenhuma vaga. Estávamos ali, revezando, para não deixá-la sozinha nem um instante, com esperança de que chegaria essa vaga e minha vó teria a chance de melhorar seu quadro clínico.

Ela esteve o tempo todo consciente, ouvindo tudo que era dito e discutido sobre seu caso, maior parte do tempo sonolenta, mas consciente. Tentamos levar a situação da forma mais leve possível, com pensamento e palavras positivas para a manter firme na fé que tudo iria passar.

Ainda na espera dessa bendita vaga de UTI, na sexta feira dia 26/06, depois de já ter negativado três vezes para o teste da COVID-19, pediram mais uma vez. Pouco tempo depois o resultado, positivo para COVID-19.

Meu Deus, o que temíamos tanto aconteceu, veio carregado de mais medo, insegurança, dúvidas e correria na sala. A correria não foi para nos amparar, foi para se afastarem da sala. Os funcionários foram sumindo, nos olhando com preconceito, desprezo. Um total despreparo, desprezo pela paciente acamada ali naquela sala fria.

Nesse momento estávamos eu e meu tio Rock, percebemos tudo, vimos os olhares, a indiferença. Permanecemos, jamais abandonaríamos nossa amada Iolanda ali sozinha na frieza daquele lugar. Não teve compaixão, não teve uma conversa esclarecendo que os profissionais poderiam se afastar por falta de equipamentos para a atual situação, apenas sumiram.

Quando cobramos do enfermeiro chefe do dia uma posição, ele disse que seria bem sincero. Era só o que precisávamos, sinceridade antes dos cochichos e olhares de desprezo. Nos relatou a carência de equipamentos para os profissionais, que não eram obrigados a trabalhar nessas condições e pediu para a gente entender o lado deles.

Em momento algum nós deixamos de entender, a calamidade na saúde do Brasil chega a ser palpável. O que nós esperávamos era uma atitude profissional, amparo aos familiares que estavam ali, correndo risco também, estávamos todos no mesmo barco. Aliás, ainda estamos todos nesse mesmo barco e se não houver compaixão pelo próximo, meu Deus, não consigo imaginar o que será da humanidade.

Continuamos ali, esperando o que seria feito, o pedido da UTI foi intensificado, entre ligações, áudios e vídeos, meu tio suplicou ajuda, suplicou misericórdia. Ela estava já bem cansadinha, tossia, via toda nossa correria na sala para limpar seus curativos das pernas, que não tinham sido feitos, ferimentos esses vindos de uma condição de úlcera vascular periférica, condição essa que o enfermeiro em questão disse não estar descrito no prontuário e portanto ele nem estava a par dessa condição.

Eu me pergunto, porque algumas pessoas escolhem trabalhar na saúde, se elas não estão ali de coração, por amor ao próximo?

Por volta das 17h00 deste mesmo dia a vaga da UTI saiu, agora era para a ala COVID. Não teríamos acesso a nada, ela seguiu dali sozinha, aos cuidados de pessoas desconhecidas e nós não podíamos fazer nada, a não ser nos agarrar na Fé e na esperança que de novo seria o melhor para ela.

Descemos em direção a nossa cidade São Miguel, doloridos, magoados, incrédulos que passamos por tudo isso diante de uma situação tão delicada. Apesar disso, escolhemos nos segurar na esperança de que ela voltaria para sua família. Ela tinha medo, relatava medo, sua voz já estava tão baixinha, cansada. Ainda assim, decidimos acreditar em Deus que tudo pode, que cura e que faz milagres.

Em menos de 24 horas meu tio manda um áudio que ela havia falecido, oh meu Deus, que sensação horrível. A minha primeira reação foi bater com os pulsos no móvel em que me apoiava, num sentimento de revolta, de derrota. Perdemos, depois de dez dias de luta, o vírus venceu.

Não sendo tudo isso o bastante, começou a correria de liberar o corpo, sem contato, sem ver, sem nada. Apenas um caixão lacrado sairia da ala COVID direto para o carro da funerária e direto para o cemitério da cidade de São Miguel, onde esperávamos na entrada da cidade, em carros, sem tumulto, apenas uma família querendo dar a minha vó pelo menos um cortejo de despedida.

O carro da funerária surgiu em disparada, como uma ambulância que tem pressa. Que dor, que descaso, quanto despreparo. Em menos de um minuto o padre deu sua benção, chegando ao cemitério onde ficamos de longe vendo mãos desconhecidas carregar o caixão da minha avó, impotentes, doloridos, voltamos para nossas casas.

Agora aqui feridos com a perda, com a dor da ausência, seguiremos firmes na fé. Porque minha vó era uma mulher muito forte, honesta e não desanimava diante dos inúmeros problemas que preenchiam sua vida. Nunca a vi murmurar de nenhuma situação, sempre alegre, e assim, vamos lembrar dela e por ela nos reerguer e continuar lutando.

Vó Iolanda, nós te amamos para todo o sempre!

O que me levou a escrever essa carta foi o fato de estarmos vivendo um momento tão difícil no mundo inteiro, onde falta das pessoas a compaixão pelo próximo, se colocar no lugar das famílias que sofrem suas perdas por esse vírus maldito.

Eu queria pelo menos alcançar alguns corações, corações políticos, corações da saúde pública, especialmente da nossa cidade, para que se pense em campanhas, informações a população, aos profissionais de saúde, todas as pessoas que estão à frente dessa guerra, para que tenham conhecimento de como lidar diante dessa situação.

Minha vó entrou para a estatística sendo a primeira morte do município pela COVID-19, eu queria que mesmo diante da dor da família Torres, se levantassem os soldados que lutarão para que não tenhamos mais mortes e todos abram seus corações para o Amor.


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