21 AGO 2026 | ATUALIZADO 11:43
EDUCAÇÃO
Por: Ayrton Silva
21/08/2026 11:43
Atualizado
21/08/2026 12:21

Estudante da Ufersa cria software inovador que facilita a avaliação da qualidade da água

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Com a sensibilidade de quem conhece a escassez do Semiárido, a jovem engenheira Andrezza Rosa, da Ufersa, desenvolveu o software SAIQA para ser um verdadeiro "termômetro inteligente" das nossas águas. Em uma pesquisa, ela transformou a matemática árdua dos laboratórios em relatórios visuais simples, que revelam em minutos se um rio ou reservatório serve para abastecer casas, irrigar plantações ou dessedentar animais.
Imagem 1 -  Com a sensibilidade de quem conhece a escassez do Semiárido, a jovem engenheira Andrezza Farias, da Ufersa, desenvolveu o software SAIQA para ser um verdadeiro "termômetro inteligente" das nossas águas. Em uma pesquisa, ela transformou a matemática árdua dos laboratórios em relatórios visuais simples, que revelam em minutos se um rio ou reservatório serve para abastecer casas, irrigar plantações ou dessedentar animais.
Com a sensibilidade de quem conhece a escassez do Semiárido, a jovem engenheira Andrezza Farias, da Ufersa, desenvolveu o software SAIQA para ser um verdadeiro "termômetro inteligente" das nossas águas. Em uma pesquisa, ela transformou a matemática árdua dos laboratórios em relatórios visuais simples, que revelam em minutos se um rio ou reservatório serve para abastecer casas, irrigar plantações ou dessedentar animais.
Foto: Pedro Cezar

Quem cresceu no interior do Nordeste carrega na memória o fantasma da torneira seca e o aviso ancestral de que um dia a água haveria de faltar. Mas, para além da escassez física, existe um perigo invisível e silencioso: a morte lenta dos rios e reservatórios pela perda de qualidade. Foi de olho nesse cenário que uma estudante da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Mossoró, decidiu transformar a matemática árdua dos laboratórios em uma ferramenta acessível para salvar mananciais.

Recém-formada em Engenharia Agrícola e Ambiental, Andrezza Rosa desenvolveu em seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) o SAIQA (Sistema Integrado de Avaliação da Qualidade Ambiental). Trata-se de um software que funciona como uma espécie de "termômetro inteligente" para águas superficiais.


A grande inovação não está em fazer contas, que os computadores já fazem há décadas, mas em traduzir o significado delas. O sistema cruza dados complexos e gera relatórios em formato PDF, apontando se aquela água serve para abastecer uma casa, dar de beber aos animais ou irrigar uma plantação.

Imagem 01: Layout da página inicial da plataforma. Foto: Pedro Cézar

Na comunidade científica, avaliar a saúde de um rio costuma ser um exercício de paciência e termos técnicos herméticos. É preciso medir o "Índice de Qualidade da Água" (IQA) através de parâmetros rígidos, como fósforo total e oxigênio dissolvido, e cruzá-lo com o "Índice de Estado Trófico" (IET).

Até então, o pesquisador precisava tabular tudo no Excel ou caçar sites esparsos na internet que devolviam apenas uma nota fria. “Eu queria trazer algo útil pra comunidade, comunidade acadêmica, comunidade em geral. Então, eu conversei com o meu orientador, deu a ideia de a gente criar essa calculadora, é algo que existe (...) só que aquela coisa enxuta, traz ali a nota e a classificação. Então, eu queria algo que realmente agregasse”, explica Andrezza.

O diferencial do software é criar uma ponte entre os dados e a realidade. Ele analisa diferentes pontos geográficos ao mesmo tempo e gera um diagnóstico visual e textual. “Se o pesquisador tiver 10 pontos pra estudar, ele vai ser avaliado os 10 pontos, se tiver 50, serão avaliados. Então, ela é uma ferramenta que veio pra facilitar, pra ajudar o dia-a-dia dos pesquisadores”, diz a engenheira.

Imagem 02: Pesquisadora Andrezza Rosa mostrando como funciona o site. Foto: Pedro Cezar

Para conseguir isso, a estudante fez um mergulho profundo na literatura acadêmica. Ao notar que um rio poderia ter uma nota boa em um índice e ruim em outro, ela uniu as dezenas de combinações possíveis e as afunilou em cenários práticos. “Foi onde surgiu a avaliação integrada, que inicialmente (...) dariam 30 cenários, mas eu fui ali afunilando, estudando, me aprofundando, e cheguei a 18 cenários com cinco classificações”, detalha. O resultado é um mapa de saúde da água que até um estudante iniciante consegue interpretar, impulsionado por um menu educacional que explica didaticamente como ler os gráficos.

Afinal, entender a água é compreender também os pequenos incômodos do cotidiano. Em Mossoró, por exemplo, o morador sente o reflexo direto dessas análises na pele e na rotina da casa. Quando o pH é muito elevado e a temperatura sobe, os minerais se cristalizam e começam a entupir os furinhos do chuveiro com o tempo. É a química da natureza invadindo o banheiro.

O professor e orientador da pesquisa, Rafael Batista, explica que esse diagnóstico doméstico ajuda na convivência com os recursos locais: “Por exemplo, na residência se a água tem um pH muito elevado e ela é quente, acontece muito aqui em Mossoró, a cristalização, a formação de precipitados, por exemplo, no chuveiro a gente vê que entope com o tempo. Então conhecendo essas informações a gente pode tomar as medidas que nos permitam conviver com aquele tipo de água”.

Imagem 03: Professor, Dr Rafael Batista duranre entrevista ao jornalista Ayrton Silva. Foto: Pedro Cezar

A ferramenta desenvolvida na Ufersa funciona justamente como um atalho pedagógico para desatar esses nós. Para que o Ministério da Saúde ateste a potabilidade de uma água, ou seja, se ela é realmente segura para o consumo humano, a legislação atual exige que se avaliem mais de cem parâmetros rígidos. O SAIQA entra em cena para antecipar esse caminho. “O SAEQA vem no sentido de já abrir caminho para isso. Então se faz uma avaliação com o SAEQA e a avaliação é boa, excelente ou ótima, com os tratamentos convencionais aquela água provavelmente vai servir à potabilidade”, esclarece o professor.

Conhecer para proteger

Embora o programa exija dados de laboratório para funcionar — o que afasta o uso doméstico por um cidadão comum que não tem acesso aos números de fósforo ou oxigênio —, seu impacto social pulsa na velocidade que confere às decisões públicas. “Como ela entrega mais facilidade os resultados, as interpretações, então, são mais fáceis ter mais pesquisas. Então, de rios, de diferentes pontos (...) isso vai refletir, de certa forma, num bem-estar para a sociedade, porque, certamente, vai acelerar o processo de avaliação da qualidade da água”, orgulha-se Andrezza.

O professor Rafael Batista lembra que o avanço tecnológico precisa caminhar de mãos dadas com a sobrevivência e serve de bússola para que governos e indústrias decidam o destino desse recurso. “Então nem toda a qualidade de água serve, por exemplo, para a potabilidade. Então a gente investiga a qualidade da água e essa investigação vem com a ferramenta que a Andrezza desenvolveu e depois a gente recomenda a parte dos usos múltiplos, irrigação, consumo humano, dessedentação animal, atender à indústria e assim por diante”, conclui o orientador, reforçando que a tecnologia desenvolvida no coração do semiárido potiguar tem validade universal. Afinal, diante da crise climática, o primeiro passo para tratar e proteger a água é compreender o que ela está tentando nos dizer.

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