
O Rio Grande do Norte tenta desenhar uma saída para o seu histórico isolamento ferroviário e se integrar à Malha Nordeste. O governo estadual estuda duas rotas estruturantes para conectar o território potiguar à Transnordestina, projeto federal que hoje beneficia diretamente o Ceará e Pernambuco. A articulação busca mitigar o "custo RN", gerado pela dependência quase exclusiva do modal rodoviário, que encarece o escoamento de riquezas como o petróleo, o sal marinho, a fruticultura e a produção de cimento.
A retomada dos trilhos é vista pelo setor produtivo como o movimento mais ambicioso das últimas décadas para modernizar a logística local. De acordo com Roberto Pinto Serquiz, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN), o momento atual exige pressa para que o estado recupere o terreno perdido.
“Para a competitividade da indústria e do setor produtivo, é infraestrutura e melhoria do ambiente de negócio. Nós estamos aqui hoje testemunhando o passo inicial da duplicação da 304, duas principais cidades do estado, Natal e Mossoró, e conecta com diversas regiões. Aqui nós temos o maior PIB industrial do estado, que é o petróleo. Aí você vê a fruticultura, o sal, a energia renovável, cimenta, argamassa e diversos outros setores. Então, essa é uma obra de exemplo estruturante e que o Rio Grande do Norte precisa que ela seja concluída para melhorar a logística e, naturalmente, a competitividade. E aí você pode escalar isso para todo o estado”, afirmou Serquiz, durante a inauguração dos primeiros 12 km da duplicação da BR-304, em Assú.
Os Dois Caminhos para a Transnordestina
Atualmente, o Palácio de Despachos de Lagoa Nova trabalha com dois traçados técnicos concorrentes. O primeiro, defendido pela Secretaria de Estado do Planejamento, projeta uma linha que conecte o futuro Porto Indústria Verde, em Caiçara do Norte — promessa para o hub de energias renováveis —, passando por Mossoró, Apodi e Pau dos Ferros, até alcançar a cidade de Iguatu, no Ceará.
O segundo traçado, tecnicamente preferido pela FIERN, aposta na reativação de um antigo corredor logístico. A proposta sugere partir de Mossoró, passar por Sousa, na Paraíba, e entroncar em Missão Velha (CE), ponto nevrálgico da Transnordestina.
“Dentre elas, nós podemos transbordar também para a ferrovia nordestina, que hoje o Ceará e Pernambuco se aliaram e fizeram um canal, e que nós temos na Federação da Indústria do Estudo, que aponta que você saindo de Mossoró, Souza, e ligando com Missão Velha na Paraíba, você consegue se conectar com a transnordestina que foi realizada por Ceará e Pernambuco”, explica o líder empresarial.
A vantagem da rota sugerida pela federação industrial reside no pragmatismo econômico e na facilidade jurídica. “Recentemente, eu recebi a visita do secretário Alexandre, do planejamento, ele criando uma nova opção, considerando o porto Indústria Verde, que é um porto de Caiçara do Norte, saindo de lá, Mossoró, Apodi, Pau do Cerro e chegando em Iguatu, no Ceará. São duas alternativas, esse estudo vai ser realizado, segundo ele. A Federação aponta o mais assertiva a ida até Missão Velha por uma situação muito simples, é porque existe um canal, ali já existiu uma ferrovia, e que não é precisada aquela quantidade de indenizações, então é mais rápido, mais acelerado a gente conseguir esse eixo”, pondera Serquiz.
O presidente aponta que a falta de investimentos robustos travou a economia estadual. “Vamos aguardar o estudo, que nós temos então essas duas alternativas, de forma que a infraestrutura do Estado, ela precisa realmente ser modernizada, como está começando a acontecer, para que a gente possa realmente ter mais competitividade. A indústria, ela tem um custo do Rio Grande do Norte hoje, que deixa realmente uma perda de competitividade a nível regional. E nós temos uma riqueza, muitas riquezas, muitas indústrias, e que a partir do momento que você tem a infraestrutura, o ambiente de negócio, a regulação também atualizada, a gente vai transformar esse Estado, cada vez mais desenvolvido em crescimento social e ambiental”.
O Passado sobre Trilhos: A Estrada de Ferro de Mossoró
A busca por uma rota até a Paraíba e o Ceará não é inédita; trata-se, em grande medida, do resgate de uma história interrompida. O Rio Grande do Norte já possuiu uma malha ferroviária ativa e vital para o seu interior. O maior símbolo desse período foi a Estrada de Ferro de Mossoró (EFM), cujo primeiro trecho foi inaugurado em 1915, inicialmente ligando o porto de Porto Franco (atual Areia Branca) a Mossoró, para transportar a pujante produção de sal marinho e algodão.
Nas décadas seguintes, a ferrovia expandiu-se em direção ao sul, alcançando a cidade paraibana de Sousa nos anos 1950. Durante o seu auge, a linha funcionou como o verdadeiro motor do desenvolvimento do Oeste Potiguar, transportando passageiros e cargas em uma integração regional pioneira que ligava o interior dos estados aos portos.
Contudo, a partir dos anos 1970, a prioridade do governo federal se voltou drasticamente para o modal rodoviário. O esvaziamento dos investimentos na Rede Ferroviária Federal (RFFSA) resultou no sucateamento da linha e, posteriormente, na sua total desativação e erradicação dos trilhos. As antigas estações tornaram-se ruínas históricas, e o estado perdeu sua única artéria de transporte de alta capacidade para longas distâncias.
Olhar para esse retrocesso ajuda a explicar o atual atraso logístico. “Você olhou no retrovisor bem atrás, e essa decisão lá atrás, ela foi prejudicial para o Brasil, ela foi prejudicial para o Rio Grande do Norte, porque hoje o principal modal é o rodoviário, e o rodoviário, ele é muito, do ponto de vista do preço, ele não tem nem com marido, nem com a ferrovia, então é preciso que realmente a gente retome e faça essa graduação para que a gente possa tornar o país e o Rio Grande do Norte dentro desse contexto da competitividade”, conclui Serquiz.