
O futuro da segurança alimentar no Brasil e a sobrevivência econômica da agricultura familiar dependem diretamente da inserção de tecnologia e da mecanização no campo. A avaliação é de Alexandre Lima, Secretário de Estado do Planejamento, do Orçamento e Gestão do Rio Grande do Norte (Seplan-RN), que aponta a modernização tecnológica como o único caminho para frear o esvaziamento rural e atrair as novas gerações.
"Na verdade, a agricultura familiar representa 70% do que é consumido no mercado interno. Então, quem coloca comida na mesa do povo brasileiro são os agricultores familiares. E o Nordeste detém 50% do total das propriedades de agricultura familiar", afirma Lima, chamando a atenção para a histórica falta de insumos técnicos na região. "E com muita carência, precisamente, de acesso à tecnologia. Então, não tem outro caminho."
Foto: Arquivo secom RN.
O diagnóstico do secretário toca em uma ferida demográfica estrutural: o envelhecimento da força de trabalho no interior. Para ele, a introdução de pequenas máquinas é o principal vetor para garantir a sucessão familiar nas propriedades. "Nós temos um processo muito forte de envelhecimento e diminuição da mão de obra rural. E só tem um caminho, levar a tecnologia para que esses jovens se estimularem a permanecer no campo", defende. "O caminho está dado, é o caminho de levar a tecnologia, de mecanizar a agricultura familiar para você ampliar a produção e, com isso, possibilitar que o Brasil atenda a sua demanda interna por alimentos."
O laboratório de Apodi
Os impactos práticos dessa transição tecnológica já deixaram de ser mera estimativa teórica para virar dados estatísticos no Rio Grande do Norte. No município de Apodi, uma parceria que envolve o intercâmbio de pesquisadores asiáticos transformou a realidade local.
"Nós tínhamos em Apodi hoje a primeira resiliência tecnológica da América Latina. Tem estudantes chineses que moram em Apodi, que se revezam lá", relata o secretário. De acordo com Lima, os primeiros artigos científicos publicados internacionalmente com base no projeto validaram o ganho de eficiência.
Foto: Arquivo secom RN.
"O uso das pequenas máquinas aumenta em até 80% o rendimento do trabalho. Então, são dados muito significativos, dados cientificamente comprovados. Redução do tempo de trabalho, aumento de 70% da produtividade, são dados muito importantes que vão, na verdade, colocar com elementos técnicos, científicos, que a gente já via no empirismo", detalha. "Não tem outro caminho, é dialogar com a experiência de mecanizar, de tecnificar, pra que a gente consiga produzir comida de verdade e diminuindo o esforço de quem vive e trabalha no campo."
Inclusão social e gênero
Além dos indicadores econômicos, a mecanização cumpre um papel social central no Nordeste, onde o rigor climático impõe barreiras severas ao trabalho braçal tradicional. Lima ressalta que as novas gerações rejeitam o desgaste extremo da lavoura feita exclusivamente à base de enxada.
"Nós temos que ter um papel central, é colocar um outro tipo de trabalho no campo, que é a penosidade do trabalho rural. As pessoas não estão querendo mais se submeter a um tipo de trabalho que é tão penoso, e principalmente aqui na região do Sertão, do Semiarid[o], que as condições ambientais são muito mais difíceis", pondera, traçando um paralelo com outras regiões produtoras do país. "Uma coisa é você ter um trabalho rural no centro-sul do país, situações mais amenas, temperaturas mais amenas, aqui não, aqui o desgaste físico é muito maior, por isso que aqui é tão importante usar a mecanização."
Essa mudança na dinâmica de esforço físico abre margem também para uma maior equidade de gênero no arranjo produtivo local. Segundo o titular da Seplan-RN, o maquinário reduz os obstáculos de força motriz e potencializa o protagonismo feminino na cadeia agrícola.
Foto: Luziaria Machado/ UERN.
"Ao diminuir o esforço físico, as mulheres poderão fazer com muito mais efetividade o trabalho. Então, além da juventude, a inclusão das mulheres do ponto de vista que a mecanização pode possibilitar", conclui Lima. "Não tenho dúvida, a mecanização, a tecnificação já está fazendo uma verdadeira revolução na agricultura familiar do Nordeste Semiárido."