
A capacidade do Rio Grande do Norte de produzir até dez vezes mais energia do que consome converteu o estado em um território estratégico na disputa por investimentos de infraestrutura digital e transição energética. O superávit, contudo, esbarra em limitações de escoamento da rede elétrica nacional, gerando um paradoxo: sobra potência, mas falta demanda local para absorvê-la.
Para reverter o desperdício, o setor industrial potiguar tenta atrair grandes consumidores de eletricidade, com foco nos data centers. A estratégia de aproveitar a energia limpa ininterrupta para sediar essas estruturas foi projetada originalmente pelo ex-senador Jean Paul Prates, considerado o arquiteto dos caminhos regulatórios e estruturais das energias renováveis no estado.
“Estamos vivendo um período em que atingimos um superávit bastante significativo de energia na região do Brasil Equatorial”, afirmou Prates, que atualmente atua como chairman do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne). “Diante dessa explosão de oferta, cabe-nos começar a conectar novas demandas. Isso inclui data centers, plantas de hidrogênio e todo tipo de energia verde. Nós estamos buscando novos mercados para a nossa energia e isso é urgente.”
O plano potiguar, no entanto, enfrenta a concorrência agressiva de estados vizinhos. O Ceará, que também registra excesso na produção de eletricidade, já transformou o potencial em contratos firmados. O governo cearense garantiu a atração de um mega data center voltado para a operação global do aplicativo TikTok, em um investimento privado estimado em até R$ 200 bilhões até o ano de 2033.
No Rio Grande do Norte, o fenômeno técnico conhecido como curtailment — o corte forçado da geração renovável pelas distribuidoras devido à ausência de linhas de transmissão e de cargas conectadas — é o principal argumento para acelerar os projetos. “Hoje nós temos muita energia, o Rio Grande do Norte sofre curtailment”, explicou o engenheiro eletricista Roberto Wagner, presidente do Crea-RN. “Há um descasamento entre a geração e as cargas. A chegada de data centers, que representam grandes cargas, pode aproximar a demanda da capacidade de geração”.
Para destravar os investimentos, o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN), Roberto Serquiz, aponta que a prioridade imediata é oferecer estabilidade regulatória. “Essa disponibilidade de energia não é uma perspectiva a ser transformada em vantagem energética: ela já é uma vantagem. Agora nós entramos na fase de captar os consumidores, dando mais segurança a eles nesse fator, gerando uma firme segurança jurídica”, declarou Serquiz.
Segundo o dirigente da FIERN, o estado reúne condições geográficas ideais para vencer a disputa por novos empreendimentos. “Certamente o Rio Grande do Norte é um dos melhores pontos para se instalar data center no Brasil. Temos abundância na geração do seu principal insumo, que é a energia, e estamos muito próximos da entrada das estruturas de comunicação que chegam pelo Nordeste”, argumentou.
O estreitamento desses dois mercados — o de tecnologia digital e o de energia — será o eixo central de dois grandes fóruns industriais em Natal. A FIERN sediará a sétima edição do Energy Storage Brasil, focado em tecnologias de armazenamento de baterias, e o Data Center Conference 2026. “Não basta o Rio Grande do Norte ser uma potência na geração renovável se parte dessa energia encontra limitações para chegar ao consumo”, avaliou Tiago Fraga, diretor do Grupo FRG Mídias & Eventos, organizador das conferências.
*Com informações de Energy Channel e Eixos