23 JUN 2021 | ATUALIZADO 18:15
MOSSORÓ
ANNA PAULA BRITO E CEZAR ALVES
28/05/2021 21:57
Atualizado
29/05/2021 12:04

‘Quero contar minha história pro povo saber que a gente existe’

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Andréia Kaliane da Silva, de 35 anos, é moradora do sítio Montana, na comunidade Maisa, zona rural de Mossoró. Tendo estudado apenas até o primeiro ano do ensino médio, ela escreve cordéis que contam histórias de sua vida, momentos de dificuldades e outros de muita alegria. Ao MOSSORÓ HOJE, Andréia conta que seu maior sonho é publicar um livro e dar uma vida digna aos seus filhos.
Imagem 1 -  Andréia Kaliane da Silva, de 35 anos, é moradora do sítio Montana, na comunidade Maisa, zona rural de Mossoró. Tendo estudado apenas até o primeiro ano do ensino médio, ela escreve cordéis que contam histórias de sua vida, momentos de dificuldades e outros de muita alegria. Ao MOSSORÓ HOJE, Andréia conta que seu maior sonho é publicar um livro e dar uma vida digna aos seus filhos.
Andréia Kaliane da Silva, de 35 anos, é moradora do sítio Montana, na comunidade Maisa, zona rural de Mossoró. Tendo estudado apenas até o primeiro ano do ensino médio, ela escreve cordéis que contam histórias de sua vida, momentos de dificuldades e outros de muita alegria. Ao MOSSORÓ HOJE, Andréia conta que seu maior sonho é publicar um livro e dar uma vida digna aos seus filhos.
FOTO: ANNA PAULA BRITO

O cordel é uma manifestação literária tipicamente nordestina e é nos versos que cria que Andréia Kaliane da Silva, de 35 anos, moradora do sítio Montana, na comunidade Maisa, zona rural de Mossoró, encontra inspiração para contar sua história de vida.

Tendo cursado apenas até o primeiro ano de ensino médio, a mulher encontrou no cordel uma “válvula de escape” para os problemas da vida. Ela contou ao MOSSORÓ HOJE que seu sonho é escrever um livro.

Andréia disse que conheceu o estilo literário em 2004, aos 19 anos, quando estudava na Escola Estadual Roberto Rodrigues Krause, no município de Parnamirim. Ela foi inspirada pelo professor de história, a quem conhece por Isaías .

“Ele chegou um dia na sala e disse que a gente ia aprender sobre literatura de cordel. Eu nem sabia o que era isso e ele disse que faríamos um trabalho sobre o assunto. Eu fiquei nervosa, porque não sabia como ia ser, mas eu fiz um trabalho muito bom, ajudei até as minhas amigas e depois disso eu comecei a escrever”, diz.

Ela conta que tudo que vinha na cabeça ela anotava rapidamente para transformar nos seus cordéis. No entanto, com o tempo, diante de inúmeros problemas, parou de escrever.

Em 2010 Andreia se envolveu com uma pessoa errada e acabou sendo presa. Passou 1 ano e meio na Penitenciária Agrícola Mário Negócio, em Mossoró. Viveu muitos momentos difíceis e foi justamente o cordel que tornou aqueles dias encarcerada menos pesados.

“A gente tinha aulas lá e eu aproveitava para escrever. Foi quando voltei a fazer cordel. Me ajudou a me manter longe de mais pessoas erradas e também me ajudava a aliviar a tensão e fazia os dias passarem mais rápido”, conta.

As experiências na penitenciária eram inspiração para os versos, mas para que as pessoas entendessem o que tinha levado ela até ali, decidiu contar sua história de vida desde o início.

“Eu queria que as pessoas entendessem como eu cheguei até ali, então eu comecei a contar como foi minha vida, desde criança. Foram muitos momentos que me puxaram pra baixo, mas outros que me fizeram querer voltar mais forte ainda”.

No caderno amarelo, que Andréia sonha ver virar um livro algum dia, ela fala da experiência com o pai já falecido que, segundo ela, foi um homem do qual ela sempre se orgulhou e pelo qual sempre teve muito respeito. Fala da perda do irmão, o único homem entre 4 mulheres. Também de um relacionamento abusivo que teve e de como conseguiu escapar dessa situação, além de outros momentos que marcaram sua vida.

Andréia Kaliane ainda conta que outra fase difícil em sua vida foi quando saiu da prisão e descobriu que era HIV positivo. A descoberta desencadeou nela uma depressão. Sem medo de ficar repetitiva, afirma mais uma vez que escrever cordéis a ajuda a lidar com a doença.

“O cordel é bom pra minha depressão. Quando eu tão assim, sem vontade de seguir, eu pego o caderno, começo a escrever, passo a limpo, escrevo de novo e vai me livrando de muitas provações longas”, diz.

Questionada sobre o motivo de querer que seus cordéis virem um livro, ela diz: “Quero contar minha história pro povo saber que a gente existe”.

Mãe de 5 filhos, o mais velho com 18 anos e o mais novo de apenas 3, completados nesta sexta-feira (28), Andréia afirma, ainda, que gostaria de poder dar uma vida financeira mais estável a eles, mesmo os que não moram com ela. O sonho do livro é o caminho que ela enxerga para esse futuro mais leve.



O PROFESSOR ISAÍAS

Logo ao começar a contar sua história, a cordelista Andreia Kaliane fez questão de contar sobre o professor Isaías, da Escola Roberto Rodrigues Krause, em Parnamirim, já citado nesta matéria.

Ela fala desde educador, que marcou com tanta força sua vida e do qual ela guarda uma lembrança tão forte há quase duas décadas, com um carinho indescritível. Conta que já tentou procurá-lo por diversas vezes, mas sem sucesso.

Pede que se alguém souber por onde ele anda, que o avise que ela gostaria muito de reencontrá-lo para agradecer por tudo que ele representou na vida dela.

“Se eu me encontrasse com ele agora, eu diria: muito obrigada! Muito obrigada por ter me apresentado o cordel. Foi ele que me tirou de vários e vários perrengues. Quando eu tava no fundo do poço eu me lembrava dele e tô na peleja aí, eu tô querendo lhe encontrar de novo viu, professor, Isaías? Lhe dar um abraço e lhe agradecer do fundo do meu coração por tudo que você fez por mim. Isso aqui não foi uma coisa à toa, não. Isso aqui foi pra me salvar. Muito obrigada!”, concluiu Andréia.


Notas

Posto JP - Maio de 2021

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