O sol forte do sertão de Apodi costumava ser o relógio de Gildenor Rodrigues, mais conhecido como Dedê. Em 1986, aos 11 anos, o horizonte da Fazenda Primazia parecia infinito para o menino que gostava de correr descalço pela terra batida. A infância ali tinha o peso do trabalho precoce, mas também a leveza da liberdade dos espaços abertos. Gildenor ajudava o pai na roça e, fascinado pela mecânica da vida rural, já assumia o volante do trator nos dias em que o operador faltava.
A máquina que simbolizava a força do trabalho, contudo, mudou o rumo de sua história. Em um dia comum, ao acompanhar o tratorista da fazenda, um solavanco desfez o equilíbrio do menino. A queda foi rápida; o avanço da roda pesada sobre sua perna esquerda, implacável. O trauma interrompeu a corrida da infância e redesenhou o seu corpo. Gildenor perdeu o membro, mas não o movimento diante da vida.
“Eu estava em cima da máquina e, quando o tratorista pilotava, deu um tranco, e eu caí pra trás. O veículo estava puxando uma grade, que atingiu minha perna. Na hora, eu vi um mundo que virou, mudou tudo. Vi minha perna toda esbagaçada. Eu senti um choque”, relata seu Gildenor.
Fragmentou-se, assim, a própria história em duas: de um lado, um menino de 11 anos correndo e brincando descalço; do outro, as lembranças de um acidente que levou embora a perna direita, mas não a capacidade de seguir em frente e se reinventar.
“Eu gostava de me movimentar, brincar, correr. Quando aconteceu o acidente, eu fiquei muito mal, mas eu tinha muitas pessoas especiais que me aconselharam. Uma delas foi a dona da fazenda, dona Rita. Ela me dizia para não desistir, que eu seria um grande homem na vida. E eu não perdi a confiança nas palavras dela”, relembra.
O tempo passou e o menino da fazenda precisou se reinventar para caber em um mundo que raramente se adapta aos que têm passos diferentes. Gildenor olhou a realidade através das lentes como fotógrafo, experimentou a pressa do comércio como vendedor de lanches e aprendeu a equilibrar os desejos e as necessidades de subsistência. Cada profissão era um novo território a ser desbravado.
“Eu tinha um amigo que era fotógrafo, me inspirei nele e falei com meu pai para comprar uma câmera. De lá para cá, comecei a trabalhar. Nessa época, conheci Cezar Alves; ele me ensinou tudo sobre fotografia e eu desenrolei. Só parei de fotografar durante a pandemia, quando precisamos nos reinventar”, comenta com um sorriso no rosto ao recordar com carinho da fase profissional.
Hoje, aos 51 anos, ele desafia a gravidade e o senso comum no cenário urbano de Mossoró. Quem caminha pelas ruas da cidade pode cruzar com Gildenor subindo em postes com uma escada. Ele trabalha instalando cabos de internet, um empreendimento familiar liderado pela filha mais velha.
Com precisão e técnica, sobe nos postes da rede elétrica para conectar vidas à era digital. No topo da escada, entre fios e o céu azul do Rio Grande do Norte, o homem que um dia teve a corrida interrompida mostra que a sua capacidade de alcançar as alturas permanece intacta.
“Confesso que tenho medo de altura, mas, para fazer esse trabalho, fizemos cursos e treinamentos. Então, não tem nenhum risco, subo e desço dos postes com segurança e sem nenhum medo. Hoje, a gente está fazendo a instalação de internet em vários bairros aqui em Mossoró. A empresa está só começando, ainda é pequena, mas com fé e trabalho a gente vai crescer”.
Uma marca da personalidade de Gildenor é o sorriso, que não se abala por nenhuma razão, mesmo quando a vida impõe dor e sofrimento. “Não devemos baixar a cabeça para nada. Eu sempre digo: não há um mal que não traga o bem. Até hoje, tudo o que eu pensei que era ruim, na verdade, era bom”.