08 JUN 2026 | ATUALIZADO 14:14
SAÚDE
Por: Ayrton Silva
08/06/2026 13:26
Atualizado
08/06/2026 13:26

Herança de barro: Apego a casas de taipa desafia combate ao mal de Chagas no RN

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A doença de Chagas avança no semiárido do RN impulsionada por insetos que se alojam em frestas de antigas casas de taipa. Como o contágio destrói o coração, a Uern surge como a principal resposta ao oferecer tratamento gratuito a 500 pacientes. A universidade realiza exames e mutirões em áreas isoladas para fazer diagnósticos precoces e evitar a morte súbita no campo. A ação dá suporte a municípios como Felipe Guerra, que tenta cortar o ciclo de infecção substituindo moradias de taipa por unidades de alvenaria.
Imagem 1 -  A doença de Chagas avança no semiárido do RN impulsionada por insetos que se alojam em frestas de antigas casas de taipa. Como o contágio destrói o coração, a Uern surge como a principal resposta ao oferecer tratamento gratuito a 500 pacientes. A universidade realiza exames e mutirões em áreas isoladas para fazer diagnósticos precoces e evitar a morte súbita no campo. A ação dá suporte a municípios como Felipe Guerra, que tenta cortar o ciclo de infecção substituindo moradias de taipa por unidades de alvenaria.
A doença de Chagas avança no semiárido do RN impulsionada por insetos que se alojam em frestas de antigas casas de taipa. Como o contágio destrói o coração, a Uern surge como a principal resposta ao oferecer tratamento gratuito a 500 pacientes. A universidade realiza exames e mutirões em áreas isoladas para fazer diagnósticos precoces e evitar a morte súbita no campo. A ação dá suporte a municípios como Felipe Guerra, que tenta cortar o ciclo de infecção substituindo moradias de taipa por unidades de alvenaria.
Foto: Pedro Cezar

Com toda uma vida dedicada à agricultura no Sítio Boa Água, comunidade rural cercada pela vegetação da caatinga em Caraúbas (RN), a principal preocupação de Adaias Martinho, de 65 anos, era a insegurança climática que afetava as plantações. Isso mudou drasticamente após ele sofrer dois infartos em um intervalo de dois anos. A sucessão de problemas cardíacos tinha uma explicação: o agricultor estava infectado pelo protozoário causador da doença de Chagas.

“Eu tomei um choque, porque não sei como fui infectado pela doença, nunca morei em casas de taipa. Mas, como trabalho no meio rural, o besouro também pode se esconder nas madeiras velhas, deve ter sido em alguma situação dessas que fui picado e não percebi”, explica o agricultor.

O barbeiro, transmissor do parasita, costuma ter hábitos noturnos. Ele vive tanto em troncos de árvores e lenha estocada quanto dentro e ao redor de moradias, especialmente em frestas de paredes. O inseto é o foco das pesquisas do médico Cléber Mesquita, professor da Uern (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte), que coordena o Ambulatório de Doença de Chagas da instituição e acompanha o caso de Martinho.

“A principal fonte de alimentação dele é o ser humano. Esse inseto tem o hábito de sugar o sangue e defecar dentro do organismo da pessoa, essas fezes é o que provoca a doença. Que pode ser introduzida pelo inseto no próprio local da picada ou em algum ferimento próximo”, explica o médico.

O vetor do mal de Chagas pode medir até 3 centímetros de comprimento. Tem o corpo alongado, achatado e escuro, geralmente preto ou marrom, com manchas avermelhadas ou amareladas nas bordas do abdômen. No semiárido nordestino, o avanço da enfermidade está historicamente ligado ao estilo de moradia regional. As construções de taipa (feitas de barro e madeira), embora representem a ancestralidade e a resistência do povo sertanejo, ainda se configuram como um grave problema de saúde pública por facilitarem a reprodução do barbeiro.


A cidade de Felipe Guerra, a 351 quilômetros de Natal e 72 km de Mossoró, possui a maior concentração desse tipo de habitação no interior do Rio Grande do Norte. Para modificar essa realidade e oferecer moradia digna à população vulnerável, a prefeitura local construiu 50 casas de alvenaria para substituir as estruturas de pau-a-pique e fez reformas em outras 18 unidades. O Executivo Municipal calcula que precisa construir outras 38 para concluir a erradicação da casa de taipa na zona rural. O projeto visa criar uma barreira epidemiológica definitiva contra o inseto na região.

“Essas casas são a grande obra social do nosso município. Nós já construímos 50 casas na zona rural, também reformamos 18. Estamos preparando um novo chamamento publico para garantir que todas as casas de taipa sejam substituídas”, explica o prefeito Salomão Gomes.

Porém, muitas famílias resistem à demolição dos antigos lares devido ao apego emocional. “`É um problema de vínculo, a gente se sensibiliza, com aquela situação de vulnerabilidade. Eles pedem pra não demolir durante a construção da casa nova, mas quando termina a obra não aceitam destruir a casa antiga. Mas é um problema que a gente vai corrigir”, afirma o chefe do Executivo municipal.

Para os especialistas, essa prática anula o efeito preventivo da política habitacional, pois o transmissor continua a se reproduzir na estrutura velha. Durante a noite, ele sai do cativeiro de barro para invadir as novas residências em busca de sangue, infectando novas vítimas.

“Eles podem pensar assim: se eu poder construir ao lado da minha casa, ficarei com duas, e uma posso usar como deposito, ou armazém. Mas, o barbeiro vai estar ali, a noite vai sair e voltar quando estiver saciado. Então, a gente precisa levar, além da casa, educação continuada para explicar porque não devemos ter essas casas e amontoados de telhas, tijolos, pedra e faxinas de varas”.

Essa é a realidade vivida pela agricultora Aurineide Ferreira. Ela foi beneficiada com uma nova moradia de tijolos após passar 27 anos em uma estrutura de pau-a-pique, mas mantém a antiga habitação de pé. “Tem dois anos que estamos morando aqui, quando ganhei essa casa foi um sonho. Mas, ainda não consegui desapegar da outra. Uma parte já foi demolida, o que ficou a gente usa pra guardar as coisas”.

Ambulatório de Doença de Chagas

Para recuperar o ritmo da rotina, Martinho implantou há nove anos um CDI (cardioversor desfibrilador implantável) por meio do serviço médico da Uern. O dispositivo eletrônico, colocado sob a pele, monitora os batimentos cardíacos na fase crônica da infecção e dispara impulsos elétricos para evitar a morte súbita quando detecta arritmias graves.

“Eu só consigo levar uma vida normal por causa desse aparelho, a cada seis meses eu faço uma revisão em Natal/RN, ele tem um prazo de validade de 10 anos. Talvez, ano que vem eu tenha que trocar”.

O ambulatório, batizado de Adoc, foi fundado em 2011 como um projeto de extensão universitária na Faculdade de Ciências da Saúde. Hoje, o órgão desempenha papel crucial na rede de saúde pública do Rio Grande do Norte, oferecendo tratamento gratuito a mais de 500 pacientes.

Idealizado para acompanhar casos crônicos no interior potiguar — área considerada de alta incidência da infecção —, o serviço funciona de forma multidisciplinar, unindo medicina, enfermagem, assistência social e pesquisa científica. Além das consultas na sede, a equipe realiza mutirões de exames diretamente nas comunidades rurais isoladas. A iniciativa descentraliza a medicina de alta complexidade e leva o diagnóstico precoce a quem mais precisa.

Expansão dos atendimentos


O impacto desse suporte atrai pacientes até da região metropolitana de Natal. É o caso da aposentada Leda Eufrásio, de 63 anos, que viaja da cidade de Extremoz até Mossoró para receber tratamento na universidade. “Já tem 21 anos que convivo com a doença, mas tem 10 anos que faço esse acompanhamento na universidade. Onde tive suporte para implantar meu marca-passo”, explica.

Cardiologistas explicam que, na fase crônica da enfermidade, a inflamação contínua destrói progressivamente os tecidos e os canais elétricos do coração. Esse processo gera cicatrizes no órgão (fibrose), bloqueando os impulsos elétricos naturais. Como consequência, o coração passa a bater de forma muito lenta ou sofre paradas perigosas, o que exigiu o implante do marca-passo em Leda.

Antes de chegar à Uern, a idosa sofreu um infarto e enfrentou uma peregrinação por prontos-socorros que não conseguiam fechar o diagnóstico correto para suas crises de mal-estar. “Foi quando eu acompanhei minha irmã, aqui em Mossoró, para uma consulta, onde descobri que o ambulatório, pedi pra marcar um exame para verificar meu coração e descobri a doença. Desde então, estou aqui até hoje”, relata.

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