
Além da condenação de 4 anos e 8 meses, proferida pelo Colegiado de Juízes da Unidade Judiciária de Delitos de Organização Criminosa (UJUDOCRIM) do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN), nos autos do Processo nº 0815382-10.2022.8.20.5106, em 9 de setembro de 2025, o vereador mossoroense Carlos Wagner de Melo Martinho, o Vavá Martinho, de 49 anos, foi condenado a 6 anos de prisão na 2ª Vara Mista de Mamanguape (PB).
As duas condenações foram por tráfico de grandes volumes de drogas. No RN, Rato — como o vereador é identificado no submundo do crime — foi sentenciado a 4 anos e 8 meses por importar grandes quantidades de entorpecentes da Bolívia para que Carlos Alexandre Martins Salviano, o Nem do Abolição, os distribuísse entre membros do Sindicato do Crime em várias cidades do Rio Grande do Norte, com destaque para Mossoró e Natal.
Já em Mamanguape, na Paraíba, Rato (que na época também era conhecido por Dentinho) respondeu a processo por enviar drogas de Natal para o detento Thaner Yasbec Asfora, que comandava uma extensa rede de tráfico de drogas de dentro do Presídio do Roger, além de um poderoso grupo de extermínio no Estado da Paraíba. Esse esquema de extermínio, envolvendo vários policiais, foi desbaratado pela Polícia Federal em 2010.
No caso das drogas, consta no processo que, em 16 de agosto de 2006, por volta das 22h30, no km 37, o veículo Kadett que transportava a droga enviada por Rato/Dentinho para Thaner Asfora foi parado pela PRF. O motorista Reginaldo de Sena Santos foi preso em flagrante com 4 quilos e 820 gramas de cocaína. A PRF também prendeu, na mesma ocasião, Almir Luiz da Silva, que dava cobertura no transporte da droga de Natal a João Pessoa a bordo de um Golf.
Almir Luiz era homem de confiança de Thaner Asfora, que também recebeu voz de prisão no Presídio do Roger. Em sequência, em 22 de setembro de 2006, Rato/Dentinho foi preso preventivamente por determinação da Justiça, permanecendo nessa condição até 29 de novembro de 2006, quando obteve liberdade provisória enquanto seus advogados recorriam da sentença em instâncias superiores. Em 30 de janeiro de 2026, quase 20 anos depois, o ministro Edson Fachin, do STF, decidiu manter a sentença de 6 anos contra o réu Carlos Wagner de Melo Martinho, o Rato/Dentinho, referente ao processo da 2ª Vara Mista de Mamanguape.
Com essa decisão, o processo transitou em julgado em 24 de fevereiro de 2026, levando a juíza da 2ª Vara Mista de Mamanguape, Kalina de Oliveira Lima Marques, a determinar o arquivamento definitivo do processo e a expedição imediata da guia de execução da sentença. A medida foi direcionada ao hoje vereador mossoroense Carlos Wagner de Melo Martinho, o Vavá, filiado à Rede Sustentabilidade, no dia 18 de junho de 2026, para o início do cumprimento da pena de 6 anos de prisão em regime semiaberto, além do pagamento de 127 dias-multa.
Em 7 de julho de 2026, a decisão foi comunicada oficialmente ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que deve repassá-la à Câmara Municipal de Mossoró — local em que Rato/Dentinho atua como Vavá Martinho, vereador eleito em outubro de 2024 com 3.461 votos pela Federação Rede Sustentabilidade/PSOL.
Consultado pela reportagem, o presidente da Câmara Municipal de Mossoró, vereador Genilson Alves, disse que, até o presente momento, o Poder Legislativo mossoroense não foi oficialmente comunicado da sentença pelo TSE ou pelo TRE.
Com a demora da Justiça brasileira em concluir o processo, Rato/Dentinho continuou a traficar drogas em maior escala. Mudou-se para a cidade de Santa Cruz, na Bolívia, e passou a enviar grandes quantidades de entorpecentes em caminhões e até helicópteros para que Nem do Abolição as distribuísse em todas as regiões do Rio Grande do Norte, em uma logística envolvendo dezenas de criminosos.
Essa rede de tráfico, segundo a Polícia Federal e a Polícia Civil, movimentou R$ 190 milhões entre 2017 e 2020. As provas deste processo são robustas e detalhadas, baseadas no conteúdo apreendido nos celulares dos criminosos após as prisões no segundo semestre de 2020. Devido à solidez das evidências de tráfico internacional, foi solicitada em 2021 a prisão preventiva de dezenas de investigados, incluindo Vavá Martinho, Nem do Abolição, Fernanda Belarmino (esposa de Nem) e Josemar de Oliveira Neves, apontados como os principais nomes da organização criminosa no RN.
Entretanto, ao receber o pedido da Polícia Civil, a Justiça estadual entendeu que os quatro deveriam ser processados pela Justiça Federal. Esta, por sua vez, declinou da competência e devolveu o caso, resultando em um impasse encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) em Brasília para definir qual instância deveria decretar a preventiva dos investigados. Esse vaivém processual durou de 2021 a 2023, ano em que de fato começou a tramitação da ação que resultou na condenação de Vavá a 4 anos e 8 meses de prisão, em 9 de setembro de 2025, por um colegiado de juízes no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, sendo que até o dia 24 deste mês de julho, não havia chegado ao conhecimento público.