14 AGO 2026 | ATUALIZADO 17:37
ECONOMIA
Por: Ayrton Silva
14/08/2026 17:37
Atualizado
14/08/2026 17:37

Super El Niño ameaça produção de mel no RN; produtores recorrem a alimentação artificial

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A produção de mel em Mossoró enfrenta ameaças devido ao "super El Niño", que causa seca na Caatinga e desequilíbrio hídrico, colocando enxames em risco. Apicultores e o Sebrae adotam alimentação artificial tecnológica para mitigar a mortalidade dos enxames. Apesar de o Rio Grande do Norte ter registrado recorde de 1.190 toneladas, o setor lida com desafios no escoamento e a presença de vendas clandestinas para outras regiões.
Imagem 1 -  A produção de mel em Mossoró enfrenta ameaças devido ao "super El Niño", que causa seca na Caatinga e desequilíbrio hídrico, colocando enxames em risco. Apicultores e o Sebrae adotam alimentação artificial tecnológica para mitigar a mortalidade dos enxames. Apesar de o Rio Grande do Norte ter registrado recorde de 1.190 toneladas, o setor lida com desafios no escoamento e a presença de vendas clandestinas para outras regiões.
A produção de mel em Mossoró enfrenta ameaças devido ao "super El Niño", que causa seca na Caatinga e desequilíbrio hídrico, colocando enxames em risco. Apicultores e o Sebrae adotam alimentação artificial tecnológica para mitigar a mortalidade dos enxames. Apesar de o Rio Grande do Norte ter registrado recorde de 1.190 toneladas, o setor lida com desafios no escoamento e a presença de vendas clandestinas para outras regiões.
Foto: Pedro Cezar

Sob as regras do "super El Niño", a caatinga do semiárido potiguar vive um cenário de forte apreensão para o segundo semestre de 2026. A instabilidade climática provocada pelo aquecimento recorde das águas do Oceano Pacífico ameaça estrangular a produção de mel no Nordeste, forçando apicultores locais a adotarem manejos emergenciais e tecnologia de alimentação artificial para evitar a mortalidade em massa das colmeias.

O fenômeno meteorológico deste ano registrou anomalias térmicas severas. "O El Niño geralmente eleva a temperatura da água do Pacífico em torno de um grau. Hoje, ele já está com mais de três graus de aumento", alerta o especialista em apicultura Robson Raad. De acordo com ele, a barreira térmica desvia os chamados "rios aéreos" de umidade da Amazônia em direção ao Sul do país, deixando o Nordeste desprotegido. "O sistema aspira a umidade da nossa região como se fosse um aspirador de pó. A tendência é termos uma seca muito mais intensa ou prolongada", afirma Raad.


A irregularidade no calendário de chuvas já ecoa nos apiários de Mossoró. O apicultor Iraílson Moises, que gerencia a produção da Cooperativa de Apicultores do Assentamento Jurena, relata que o primeiro semestre foi marcado por um desequilíbrio hídrico. "A chuva intensificou muito no mês de maio, mas a partir de junho praticamente não choveu. Quando a chuva é regular por pelo menos dois a três meses seguidos, a produção vai lá para cima", explica.

Imagem: Iraílson Moíses, apicultor - Foto: Pedro Cezar

Quebra na safra e o fantasma da fome

Os efeitos imediatos da estiagem severa incidem sobre o comportamento da flora nativa. Para poupar energia e garantir a própria sobrevivência diante da escassez de água, a vegetação aborta os botões florais. Sem flores, o pasto apícola desaparece. "Deverá ser um período muito longo de muita fome para as abelhas", projeta Raad.

A escassez reflete-se nos balanços locais. Em anos de inverno regular, a cooperativa operada por Moises alcançava marcas de até 18 mil quilos de mel anual. Nos últimos dois anos, contudo, o volume despencou, limitando-se a duas colheitas anuais. "No ano passado colhemos em torno de 8 mil quilos, e este ano a média deve ser a mesma, uma das mais baixas", lamenta o apicultor. 

Imagem: Robson Raad, consultor - Foto: Pedro Cezar

Para mitigar a mortalidade dos enxames durante o pico da estiagem — previsto para durar até janeiro —, especialistas recomendam intervenção direta por meio de alimentação artificial suplementar. "Se você não alimentar, morre. Seria como deixar uma vaca solta em um lugar sem capim", compara Raad. O especialista adverte, porém, que o manejo exige precisão técnica: "Se der alimentação demais, a abelha se bloqueia. Se der de menos, ela não evolui. Sem essa tecnologia, perderíamos os enxames todos e não haveria produção no ano seguinte". Raad lembra que o semiárido já enfrentou ciclos severos, como uma sequência de sete anos de El Niño no passado, e que a recuperação dos plantéis depende crucialmente de treinamento e informação sólida para os produtores.

O paradoxo do crescimento e o gargalo da clandestinidade

Apesar das barreiras climáticas, a apicultura do Rio Grande do Norte vinha desenhando uma trajetória de expansão nos últimos anos, impulsionada por investimentos técnicos. Segundo Nilso Dantas, consultor técnico do Sebrae/RN, o estado atingiu o seu recorde histórico em 2024, alcançando uma produção de 1.190 toneladas de mel, o que posiciona o território potiguar na 11ª colocação do ranking nacional de produtos apícolas.

O avanço é sustentado pela transferência de pacotes tecnológicos do Sebrae focados justamente no período de entressafra. "O grande período difícil é a entressafra, onde há falta de alimentos e perda de enxames. A atuação forte na alimentação suplementar garante que as colônias entrem na safra grandes e volumosas, melhorando a produtividade", explica Dantas.

Imagem: Nilso Dantas, Analista técnico do SEBRA/RN - Foto: Pedro Cezar

O principal entrave para a consolidação econômica do setor, contudo, não vem do clima, mas do mercado informal. O Sebrae aponta que o maior desafio atual da cadeia produtiva é combater o escoamento clandestino da produção potiguar para estados vizinhos, como Ceará, Piauí, Pernambuco e Paraíba.

"O mel sai daqui de forma irregular em tambores e baldes, chega a uma casa de mel certificada de outro estado, como o Piauí, e lá é fracionado e contabilizado como se fosse produzido por eles", revela Dantas. O consultor ressalta que o estado possui unidades com Selo de Inspeção Federal (SIF) aptas a exportar, e que o foco da instituição está em regularizar as casas de mel locais para reter o valor gerado e garantir o abastecimento oficial dos mercados interno e internacional.

Produtividade e resiliência biológica

O trabalho de campo na região divide-se entre três variedades de abelhas: a jandaíra (espécie nativa sem ferrão), a africana e a italiana (ambas com ferrão). Esta última destaca-se como o motor econômico da atividade local devido ao alto vigor biológico. "A abelha italiana é muito produtiva, resistente e adaptada ao semiárido. Ela produz cerca de dez vezes mais do que as outras", aponta Moises.


Foto: Pedro Cezar

O processo de produção começa com a captura de enxames por meio de caixas-isca instaladas estrategicamente na mata. Após o povoamento, os produtores sobrepõem estruturas chamadas melgueiras. Quando o mel está maduro e os favos são operculados (selados com cera pelas próprias operárias), as melgueiras são recolhidas e levadas para a unidade de beneficiamento, onde ocorre a centrifugação, extração e o envase em baldes ou tambores.

Organização e segurança no manejo

A estrutura social das abelhas é apontada pelos produtores como o pilar que sustenta a colmeia mesmo sob estresse climático. A divisão rigorosa de castas inclui rainhas dedicadas à perpetuidade da espécie, zangões, operárias de campo, faxineiras e guardiãs. "Cada uma tem sua função e trabalham juntas. Se os seres humanos imitassem um pouco dessa organização, seríamos muito melhores", diz Moises.

Apesar do temor que o grande volume de insetos causa em leigos, o apicultor desmistifica a agressividade das colônias com ferrão, classificando o comportamento como puramente defensivo. "A abelha não é um animal agressivo, ela apenas reage às ações do homem quando invadimos o habitat dela para colher o mel. No campo, coletando cera ou néctar, ela não ataca", explica. Ainda assim, as exigências de segurança demandam rigor técnico: o trabalho nos apiários exige o uso obrigatório de macacões especiais, botas, luvas e o uso de fumegadores para acalmar os enxames.

Imagem 1 -  Super El Niño ameaça produção de mel no RN; produtores recorrem a alimentação artificial

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