
O avanço da contaminação por ciguatera acendeu o alerta na saúde pública do Nordeste. No Rio Grande do Norte, o número de notificações de suspeita da doença saltou para 141 casos até 11 de junho de 2026, superando as 88 ocorrências registradas em todo o ano de 2025. O avanço representa um aumento de 60,2% no intervalo, de acordo com dados da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) divulgados em julho de 2026.
No acumulado histórico desde 2022, o estado contabiliza 259 notificações, 113 casos confirmados e 46 surtos da doença. Além de duas mortes associadas à intoxicação em solo potiguar. O cenário de risco se estende ao território vizinho de Fernando de Noronha (PE), que registrou cerca de 190 casos suspeitos, entre episódios isolados e surtos, entre os anos de 2022 e 2025, segundo uma Nota Técnica Conjunta da Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES/PE).
Ciclo e bioacumulação
Diferente de infecções causadas por bactérias devido ao mau armazenamento do alimento, a ciguatera decorre de uma cigotoxina produzida por micro-organismos chamados dinoflagelados.
“Essa cigotoxina é proveniente de alguns microorganismos chamados de dinoflagelados, que vivem associados a recifes de corais”, explica Egiberto Mesquita, professor do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern). Segundo o pesquisador, o processo gera uma bioacumulação ao longo da cadeia alimentar. “Os peixes herbívoros comem essas algas e efetivamente outros peixes se alimentam desses que se alimentaram inicialmente. Tornando, portanto, uma transmissão dessa toxina via cadeia alimentar até o consumidor final.”
Especialistas apontam que a alta na temperatura global e fenômenos como o Super El Niño podem perturbam as correntes marítimas e consequentemente agredirem os recifes de corais, o que pode abrir espaço para a multiplicação acelerada dos micro-organismos tóxicos.
“Um dos indícios que pode ter provocado e a gente especula que isso possa estar envolvido é justamente o aumento da temperatura que nós estamos registrando no nosso planeta. Isso pode causar a destruição dos recifes de corais, fazendo com que esses dinoflagelados possam se apropriar dessas regiões e aumentar a proliferação”, afirma Mesquita. Ele ressalta, contudo, que ainda é cedo para cravar o El Niño como a origem definitiva do problema. “É muito precoce a gente informar que isso possa ser a origem, mas é sim um fator que com certeza contribui.”
Sintomas e Diagnóstico
A toxina ataca rapidamente o organismo e provoca sintomas que variam de quadros leves a episódios severos. Inicialmente, os pacientes apresentam distúrbios gastrointestinais, como dores estomacais fortes e diarreia.
De acordo com o professor da Uern, a substância avança além do trato digestivo. “Essa toxina vai também provocando outros danos. Seriam danos neurais que se pode ter ainda ativado por pessoas que podem ter predisposição a certos tipos de doenças, como problemas cardiovasculares e hipertensão. Isso pode agravar o quadro clínico e essa pessoa pode vir a ter problemas realmente muito sérios”, alerta.
Atualmente, não existe um antídoto para combater a ciguatera. “O que acontece é que ela é tratada pelos sintomas. Então se a pessoa está com um problema gastrointestinal, efetivamente o médico vai tratar para combater esse sintoma e os problemas também provenientes da ação neural.”
Espécies sob vigilância
Além da barracuda e da arabaiana, analisadas no estudo recente, espécies comuns na mesa do consumidor como cioba, dourado e peixe-galo estão sob monitoramento constante dos órgãos de saúde pública locais.
“Essas espécies têm uma facilidade porque são animais carnívoros. Quanto mais esses peixes se alimentam de outros organismos que tenham essa toxina no seu corpo, maior será a quantidade bioacumulada”, diz Mesquita.
O pesquisador orienta que a recomendação atual não é interromper o consumo geral de pescados, mas evitar temporariamente as espécies listadas pela fiscalização. “O consumo de peixe não deve ser evitado. O que acontece é que algumas espécies são mais sujeitas a terem essa contaminação. É importante que as autoridades sempre reforcem e as pessoas evitem, pelo menos por enquanto, se alimentar desses peixes que foram divulgados até então pela Sesap, para poder se orientar melhor.”
Para o biólogo, a doença pode ter sido subnotificada no passado por ser confundida com mal-estar intestinal comum, mas o cenário atual exige respostas governamentais. “Isso vai certamente ativar muito o processo de fiscalização e tentar realmente remediar, mitigar essa ação proveniente dessa intoxicação alimentar”, conclui.
