Entre os laços que unem o Rio Grande do Norte e a Paraíba, remonta a ancestralidade de um povo que luta para que sua existência deixe de ser tratada como um rodapé na história oficial dos dois estados. Invisibilizada pela colonização, a comunidade Tapuia Tarairiú, às margens da Lagoa de Tapará, resiste para perpetuar seu legado para as próximas gerações.
Os Tapuia Tarairiú vivem hoje o que estudiosos classificam como um processo de "retomada viva". Eles são os descendentes diretos dos povos que, no século XVII, dominaram o sertão nordestino e impuseram pesadas derrotas à Coroa Portuguesa na Guerra dos Bárbaros. No entanto, o estado que abriga essa memória é o mesmo que possui um dos cenários mais críticos da política indigenista do país: o Rio Grande do Norte não possui nenhuma terra indígena formalmente demarcada.
“Os maiores desafios que enfrentamos são a demarcação do nosso território, tradicionalmente ocupado há gerações, além do reconhecimento e respeito por parte dos governos e dos municípios quanto ao nosso modo particular de viver”, afirma Josué Campelo, liderança indígena.
Com o objetivo de preservar a história, a comunidade realiza a Décima Feira Cultural Indígena da Comunidade Tapuia Tarairiú da Lagoa de Tapará, em Macaíba, que será realizada no dia 31 de maio, a partir das 9h, com entrada gratuita. O evento vai reunir apresentações culturais, jogos tradicionais, culinária típica, valorização da cultura indígena e diversas atividades gratuitas para todas as idades.
“A sociedade tem muito o que aprender com a gente, pois, na nossa visão, não separamos o ser humano e a natureza. Somos um corpo só. Tanto para a natureza quanto para os recursos a serem explorados, pedimos licença como forma de respeito. E também trabalhamos as questões socioambientais com as crianças no nosso dia a dia, para que, no amanhã, elas possam fazer um futuro muito melhor”, destaca Wilkflane Azevedo, liderança indígena.
A programação contará com manifestações culturais, espaços de convivência e experiências que destacam a identidade, os saberes e as tradições do povo Tapuia Tarairiú, fortalecendo a preservação da cultura indígena e promovendo o intercâmbio entre a comunidade e o público visitante.
Com entrada gratuita, o evento busca reunir famílias, moradores e visitantes em um momento de celebração, resistência e valorização das raízes culturais indígenas por meio da música, da gastronomia, das danças e das tradições populares. O evento acontece às margens da Lagoa de Tapará, em Macaíba (RN).
“Salve a nossa força! Será um evento maravilhoso, onde haverá a celebração da nossa cultura, saberes e resistência. Venha participar. Diga ao povo que avance, demarcação indígena já!”, ressalta e convida a líder indígena Wilkflane Azevedo.
“O povo Tarairiú ocupou boa parte do RN e da PB. Na verdade, esse nome Tarairiú nos foi dado pelos tupis; significa Comedores de Traíra. O nome na língua do povo é Otxukayana”, explica a jornalista e descendente da comunidade Luana Silva.
A ausência de demarcação oficial por parte do governo federal deixa a comunidade em uma espécie de limbo jurídico, vulnerável a investidas fundiárias. A regularização do território tradicional é vista pela Associação Nacional de Ação Indigenista (ANAI) e por juristas aliados como a única barreira capaz de frear a degradação socioambientais da área.
“Entre as celebrações tradicionais do meu povo, está o Setestro, entre os meses de maio e junho, que é quando a constelação das Plêiades fica visível aqui no Brasil”, conta Luana Silva.
As Plêiades são um dos aglomerados estelares mais próximos e brilhantes da Terra, localizado na constelação de Touro, composto por estrelas jovens que nasceram juntas há cerca de 100 milhões de anos. Conhecido popularmente como as "Sete Irmãs" devido à mitologia grega, este grupo de astros azulados é visível a olho nu de quase todo o planeta e desempenha, desde a antiguidade, um papel fundamental para diversas culturas, servindo como um relógio natural que marca o início de colheitas, estações chuvosas e calendários agrícolas.
Outra celebração é o toré, um dos rituais sagrados mais importantes para os povos indígenas do Nordeste brasileiro, funcionando como uma expressão de fé, identidade e resistência política. Realizado em círculo ao som de maracás, flautas e cantos ancestrais, a dança evoca a presença dos encantados (espíritos protetores) e fortalece a união da comunidade. Para grupos como os Tapuia Tarairiú, o toré vai além da celebração religiosa: ele é um ato de afirmação cultural e uma ferramenta de luta que demarca simbolicamente o território tradicional perante a sociedade.