03 SET 2026 | ATUALIZADO 23:39
NACIONAL
Jean Paul Prates Senador da República (2019-2023) Presidente da Petrobras (2023/24) Sócio da Altiva Inteligência Estratégica
03/09/2026 22:45
Atualizado
03/09/2026 22:46

[COLUNA OPINIÃO] Braskem: uma década de paralisia que o Brasil não pode repetir

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Quando presidi a Petrobras, em 2023 e 2024, tentamos romper essa inércia. Não defendíamos simplesmente estatizar a Braskem ou vender passivamente nossa participação. Queríamos uma solução industrial: nova estrutura de controle, governança moderna e um parceiro internacional capaz de aportar capital, tecnologia, mercados e visão de longo prazo. Mais na COLUNA OPINIÃO
Imagem 1 -  Quando presidi a Petrobras, em 2023 e 2024, tentamos romper essa inércia. Não defendíamos simplesmente estatizar a Braskem ou vender passivamente nossa participação. Queríamos uma solução industrial: nova estrutura de controle, governança moderna e um parceiro internacional capaz de aportar capital, tecnologia, mercados e visão de longo prazo. Mais na COLUNA OPINIÃO
Quando presidi a Petrobras, em 2023 e 2024, tentamos romper essa inércia. Não defendíamos simplesmente estatizar a Braskem ou vender passivamente nossa participação. Queríamos uma solução industrial: nova estrutura de controle, governança moderna e um parceiro internacional capaz de aportar capital, tecnologia, mercados e visão de longo prazo. Mais na COLUNA OPINIÃO
Ilustração IA
COLUNA OPINIÃO
Por Jean Paul Prates
Senador da República (2019-2023)
Presidente da Petrobras (2023/24) 
Sócio da Altiva Inteligência Estratégica
Natal-RN, 3 de setembro de 2026

A entrada da Braskem em recuperação extrajudicial, com cerca de US$ 10,9 bilhões em obrigações submetidas à reestruturação, é mais do que a crise de uma empresa endividada. É o resultado de quase uma década em que o Brasil foi incapaz de dar rumo à sua principal petroquímica, ainda a maior produtora de resinas termoplásticas das Américas e líder mundial em biopolímeros.

É preciso separar responsabilidades. O desastre socioambiental de Maceió foi gravíssimo. As vítimas devem ser integralmente reparadas, as responsabilidades apuradas e as obrigações ambientais cumpridas. O erro foi tratar a companhia inteira como se seus passivos tornassem radioativos suas fábricas, sua tecnologia e seu valor estratégico. Essa lógica, disseminada depois da Lava Jato, confundiu responsabilização de pessoas com destruição de empresas.

A Lava Jato revelou crimes que precisavam ser investigados e punidos. Mas sua condução econômica e institucional produziu um dos processos mais estriônicos, equivocados e destrutivos da história brasileira. Desorganizou cadeias produtivas, eliminou empregos, destruiu capacidade de engenharia e valor nacional. A Braskem tornou-se uma vítima tardia desse ambiente: primeiro pela implosão financeira da Odebrecht, depois Novonor, e em seguida por anos de indefinição societária.

Quando presidi a Petrobras, em 2023 e 2024, tentamos romper essa inércia. Não defendíamos simplesmente estatizar a Braskem ou vender passivamente nossa participação. Queríamos uma solução industrial: nova estrutura de controle, governança moderna e um parceiro internacional capaz de aportar capital, tecnologia, mercados e visão de longo prazo.

Nesse contexto avançaram as conversas com a ADNOC, de Abu Dhabi, que apresentou proposta não vinculante de R$ 10,5 bilhões pela participação da Novonor. Também abrimos interlocução com a Kuwait Petroleum Corporation, sua subsidiária petroquímica PIC e a KUFPEC. Havia empresas de altíssimo nível examinando o Brasil.

Em dezembro de 2023, porém, o Senado instalou a CPI da Braskem. Sempre a considerei desnecessária. Maceió já era objeto de atuação do Ministério Público, Justiça, Polícia Federal, órgãos ambientais e acordos de reparação. A CPI acrescentou exatamente o que um investidor internacional menos deseja durante uma due diligence: imprevisibilidade política. Não se pode atribuir exclusivamente a ela a desistência da ADNOC, em maio de 2024, mas seria ingênuo negar que agravou o ambiente de risco. As conversas com o Kuwait perderam impulso depois da nossa saída da Petrobras.

O tempo passou, o valor se deteriorou e a participação da Novonor acabou transferida ao Shine Fund, ligado à IG4, gestora de ativos em situações especiais. Em junho de 2026, a Braskem passou ao controle compartilhado entre o fundo e a Petrobras. Pouco depois, chegou à recuperação extrajudicial.Isso não significa falência. Recuperação extrajudicial é um mecanismo de reorganização negociada das dívidas, sob proteção jurídica, para preservar a empresa. E há muito a preservar. A Braskem mantém 40 unidades industriais, presença global e tecnologia própria. Mesmo em meio à crise, registrou EBITDA superior a US$ 1 bilhão no segundo trimestre de 2026.

Agora é hora de reconstruir valor. Petrobras e Shine precisam liderar uma reestruturação financeira profunda, com alongamento de dívida e eventual conversão de créditos em capital, acompanhada de governança profissional e disciplina de investimento. As obrigações de Maceió devem continuar integralmente cumpridas, sem serem usadas para condenar toda a empresa.

O passo seguinte deve ser industrial. A Braskem precisa de parceiros estratégicos globais, matérias-primas competitivas, integração inteligente com refino e gás, avanço em circularidade, biopolímeros e química de baixo carbono. A Agência Internacional de Energia projeta que a petroquímica será a principal fonte de crescimento da demanda mundial de petróleo a partir de 2026. Não é uma indústria do passado.

O Brasil já perdeu valor demais confundindo punição com destruição patrimonial e investigação com paralisia. A Braskem ainda pode ser recuperada. Seus ativos e mercados valem mais do que a fotografia financeira atual sugere. Que a recuperação extrajudicial encerre uma década de hesitação e inaugure uma política industrial adulta: reparar danos, responsabilizar pessoas, preservar empresas e reconstruir valor.

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