
Menos de 48 horas após perder a eleição presidencial no segundo turno para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) descumpriu uma ordem do Supremo Tribunal Federal (STF), recusou-se a entregar seus passaportes e fugiu do Brasil. A rota de fuga envolveu uma travessia terrestre para a Argentina e conexões de avião privado pelo Equador antes de seguir para os Estados Unidos.
O voo de Flávio decolou às 6h22 do Equador, no horário de Brasília, e segue rumo aos EUA, onde está previsto para chegar ao aeroporto Opa-locka Executive, em Miami, por volta das 10h40, segundo o site de monitoramento aéreo FlightAware.
A saída do parlamentar ocorreu à revelia da decisão do ministro Alexandre de Moraes, assinada no domingo (25). A medida proibia Flávio de deixar o país e estipulava a entrega de seus documentos de viagem à Polícia Federal (PF) até as 11h de terça-feira (27). Diante do descumprimento do prazo, o ministro determinou o cancelamento de todos os passaportes emitidos pelo Brasil em nome de Flávio, incluindo os diplomáticos. O senador também deveria ter entregue seu passaporte italiano, concedido a ele em 2023 durante o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni.
De acordo com registros oficiais da Direção Nacional de Migrações da Argentina, Flávio Bolsonaro e três familiares — sua esposa, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e as duas filhas, Carolina e Luiza — entraram em território argentino às 22h50 de terça-feira. O grupo cruzou a fronteira de carro pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu (PR) a Puerto Iguazú, na província de Misiones. Cerca de 40 minutos depois, às 23h30, a família embarcou em um jatinho particular Gulfstream G400, prefixo LV-JQW, operado pela empresa de táxi aéreo Baires Fly. O plano de voo registrava uma escala técnica em Guayaquil, no Equador, de onde a aeronave seguiu na manhã desta quarta-feira (28) para o aeroporto executivo de Opa-locka, em Miami (EUA), evitando completamente o espaço aéreo brasileiro.
As investigações e as fraudes de R$ 5 bilhões
O mandado de busca e apreensão expedido pelo ministro Alexandre de Moraes baseou-se em relatórios detalhados da Polícia Federal que apontavam riscos "concretos e atuais" de evasão de divisas e fuga. A medida judicial foi motivada pela participação direta do parlamentar em desvios bilionários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), operados em associação criminosa com o advogado Willer Tomaz. Os investigadores identificaram que os recursos públicos desviados da autarquia federal eram posteriormente ocultados e integrados ao sistema financeiro por meio de fraudes estruturadas.
A engenharia financeira para ocultar o dinheiro desviado do INSS consistia na simulação de apostas online de valores astronômicos. Segundo a Polícia Federal, a lavagem de dinheiro movimentou mais de R$ 5 bilhões por meio de uma plataforma de apostas esportivas, uma "bet", da qual o próprio senador Flávio Bolsonaro era o proprietário oculto. Os relatórios técnicos apontaram que o fluxo financeiro simulava dezenas de milhares de bilhetes e palpites fraudulentos para justificar a circulação e a origem lícita do capital milionário dentro da própria empresa do congressista.
A perícia da PF identificou que Willer Tomaz utilizava uma conta conjunta com Flávio Bolsonaro para movimentar os recursos ilícitos desta lavagem de dinheiro, o que fundamentou as medidas cautelares e o pedido de retenção de passaportes no STF. O senador também é formalmente investigado por suposto financiamento irregular do documentário "Dark Horse", que retrata a trajetória de seu pai, Jair Bolsonaro. O cerco judicial contra Flávio intensificou-se consideravelmente devido à proximidade do fim de seu mandato no Senado, marcado para fevereiro de 2027, momento em que ele perderá oficialmente as prerrogativas de foro privilegiado.
A declaração do coordenador de campanha e reações de aliados
A notícia da saída repentina de Flávio Bolsonaro do país desestruturou a cúpula do Partido Liberal (PL) em Brasília, que planejava os rumos da oposição após o resultado das urnas. O senador Rogério Marinho (PL-RN), que atuou diretamente como o coordenador da campanha presidencial de Flávio, convocou a imprensa após uma reunião partidária e admitiu publicamente o total desconhecimento sobre a estratégia de fuga de seu aliado político.
Rogério Marinho expressou surpresa com a atitude de Flávio, afirmando que conversaram sobre sua importância na liderança da oposição. A última mensagem de Flávio indicava apenas que ele iria "dar um tempo".
"Estamos surpresos porque ontem nós conversamos sobre a necessidade de que Flávio, com os 60 milhões de votos que teve, assumisse esse papel de liderança da oposição, que é importante, porque temos um governo que claramente tem feito mal ao país, na nossa avaliação", afirmou Marinho, após participar de uma reunião com parlamentares e líderes políticos do PL, em Brasília.
Enquanto isso, alas ideológicas do PL defenderam a viagem como autodefesa, com o deputado Carlos Jordy afirmando que o intuito era evitar o uso do senador como moeda de troca. Anteriormente, Flávio havia criticado a decisão de Moraes em vídeo e negado intenção de fuga.
“Ato vergonhoso”, diz Lula sobre fuga de Flávio Bolsonaro
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, nesta terça-feira (27), que a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos é “um ato vergonhoso”. Para o presidente reeleito no último domingo (25), o seu adversário nas urnas está em débito com a Justiça.
“O cidadão que sai escondido do seu país é porque deve alguma coisa”, disse Lula. “Esse ato de sair do Brasil é vergonhoso. Ele deveria ter entregue o passaporte. A Polícia Federal já devia suspeitar que ele sairia do Brasil, ele tem inquérito”, acrescentou.
Lula recebeu apoiadores que foram celebrar seu aniversário de 81 anos na frente do Palácio da Alvorada. Lá, cortou bolo e discursou. O presidente lembrou de quando foi preso, em abril de 2018, e entregou o passaporte e se entregou à Polícia Federal.
“Resolvi me entregar na Polícia Federal porque queria desmascarar meus acusadores e provar minha inocência”, disse. Na ocasião, Lula passou 580 dias preso e, em 8 de novembro de 2019, foi libertado. “E estou aqui sendo reeleito para mais um mandato por conta de vocês. Por isso eu digo a vocês, quem não deve, não teme”, acrescentou Lula.
Em 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou os processos conduzidos pelo ex-juiz Sergio Moro, reconhecendo que ele foi parcial no inquérito envolvendo Lula. Hoje, Moro é o governador eleito pelo PL, partido de Flávio Bolsonaro, de quem é aliado.
Imprensa internacional repercute fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil
Um dos primeiros veículos a noticiar a fuga foi o Infobae, da Argentina, que disse haver uma suspeita de que o senador teria embarcado com a família em um jato particular, em Puerto Iguazú, com destino aos Estados Unidos. A versão, porém, não foi confirmada pelo governo da Argentina.
O La Nación, também da Argentina, destaca que fontes próximas ao senador afirmaram que os Estados Unidos estariam diretamente envolvidos na fuga.
O periódico diz ainda que, sob o governo de Donald Trump, o país norte-americano tem se tornado o refúgio do clã Bolsonaro e lembra que Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, também está nos EUA.
O jornal New York Times destacou que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil depois de perder as eleições e após a Justiça determinar a apreensão de seu passaporte.
O espanhol El País lembrou que o senador se recusou a aceitar a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva logo após a apuração. O jornal relembra que, em 2022, Jair Bolsonaro também não reconheceu a derrota e que viajou aos Estados Unidos antes da posse de Lula, mas acabou voltando ao Brasil.
O inglês The Guardian afirma que Flávio Bolsonaro estaria a caminho dos Estados Unidos e que sua fuga pode selar o destino da extrema-direita brasileira.
O jornal cita que, além de Flávio, seu irmão Eduardo Bolsonaro também está nos Estados Unidos, foragido da Justiça brasileira, por tentar interferir no julgamento do pai, Jair Bolsonaro. E que o ex-presidente está preso, condenado por tentativa de golpe de Estado.