“Sou fruto da fé do professor”, é com essa declaração que o poeta Bráulio Bessa descreve sua trajetória na literatura brasileira, em entrevista ao Mossoró Hoje. O artista se apresentou no Polo Poeta Antônio Francisco, na noite desta quarta-feira (10), abrindo com as chaves do lirismo as festividades da semana do Mossoró Cidade Junina 2026.
Cearense da cidade de Alto Santo, o bardo moldado pelo barro do sertão mostra para o mundo o valor e a identidade do nordeste. Aos 14 anos, quando a autovergonha sussurrava que não seria nada, recebeu de um mestre-escola um livro que despertou em seu peito o instinto adormecido de escritor. Ali, sob a luz mansa do saber, nasceu o poeta de versos sinceros, objetivos e críticos.
“É muito importante que a gente fale sobre isso, porque eu acho que as pessoas tem muita curiosidade sobre minha trajetória, sob o olhar midiático. Como pode um poeta de cordel, do sertão aparecer na televisão? É importante que a gente traga esse olhar, eu sou fruto de uma sala de aula, não sou fruto da televisão. A poesia me salvou, eu achei que não iria ser nada na vida”, explica o poeta.
Entusiasta fervoroso da educação pública, Bráulio explica que a crença do professor no ofício sagrado de ensinar funciona como chuva fina que irriga a alma sedenta de um aluno em busca de autodescoberta. “Eu estou aqui agora graça a poesia, graças a uma sala de aula, graças a educação publica desse país”.
Ao tatear o nome de Antônio Francisco com profunda reverência, Bessa explica que o patrono do polo transcende o papel de ídolo: “eu sou devoto, é uma referência pra mim, pra quem acredita em poesia. Então está aqui, agora, é uma possibilidade de retribuir e ser grato por tudo que ele fez, faz e vai continuar fazendo pela poesia”.
O grande homenageado do polo cultural, cuja presença iluminou a abertura das festividades, deixou que a emoção transbordasse. “Meu coração está batendo a cem por hora”, revelou Antônio Francisco. Durante a celebração, em um momento de pura transmissão de afeto e herança rítmica, ele e o neto recitaram um dos poemas do livro Os Animais Têm Razão.
“Homenagear o meu avô é um privilégio, ainda estou aprendendo, são tinta anos de poema, pra eu chegar nos pés deve vou ter de correr muito. Espero um dia ser um pouco do que meu avô representa”, conta Segundo Neto.
A noite mágica foi tecida também por fios de outras vozes promissoras, a exemplo da poetisa Quitéria Jales, de 17 anos, vinda da cidade de Pau dos Ferros. “Aos seis anos conheci um livro de Bráulio, dali não parei mais, hoje já tenho três livros publicados e quero escrever ainda mais”, revela a jovem, provando que a semente plantada na sala de aula continua a florescer em novos quintais.