
O susto veio no diagnóstico de pressão alta aos sete meses de gestação. A recepcionista Mariana Almeida, 22, viu a rotina tranquila virar um internamento de urgência. "Fiquei nervosa na hora que ele falou que ia ficar, mas aí depois passou. Porque eu sei que vai ser para o meu bem e para o bem do bebê", contou. Ela recebeu medicação corticoide na veia: "Ele passou uma injeção para fortalecer o pulmão do bebê, caso precisasse retirar antes". A previsão médica se confirmou de forma avassaladora. No dia seguinte ao relato, o pequeno Arthur Miguel nasceu antes do tempo.
A história de Mariana ilustra uma realidade crítica em Mossoró. De janeiro a junho de 2026, a cidade registrou 1.144 partos, dos quais 162 foram prematuros e 106 resultaram em crianças com baixo peso — abaixo dos 2,5 kg considerados ideais para a sobrevivência saudável. A estrutura local corre contra o tempo para dar suporte a esses leitos: a Maternidade Almeida Castro conta com apenas 10 leitos de UTI Neonatal.
Em 2018, de 6.826 partos, a cidade registrou 990 prematuros e 725 bebês com baixo peso. Esse volume de partos manteve alto em 2023, com 6.910 procedimentos, mas recuou para 5.964 em 2025, após o Hospital da Mulher de Mossoró começar a fazer partos na região — no mesmo ano os casos de prematuridade somaram 371 e os de baixo peso chegaram a 255.
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Atrás dos números, existem vilões biológicos silenciosos que antecipam o fim das gestações. O médico ginecologista Luiz Dalama aponta que o principal gatilho para os partos prematuros na região é uma velha conhecida das mulheres, mas que se comporta de forma perigosa no organismo grávido: a infecção urinária.
"Na gestante, ela é diferente de uma infecção de uma mulher não-gestante devido ao bloqueio progesterônico. Com isso, ela não sente a uretra, praticamente. A pessoa que não está gestante, quando ela está com uma infecção urinária, ela sente aquela ardência no canal da uretra. E isso já denota que ela está com uma infecção e ela procura ajuda. Como a gestante não sente esse desconforto, o que acontece? Ela posterga esse tratamento. Às vezes, a paciente nos procura porque ela teve um sangramento quando ela foi fazer xixi. E, na mente dela, aquilo não foi devido à infecção urinária”, explica Dalama.
As consequências desse atraso costumam ser graves tanto para a mãe quanto para o feto. “Essa infecção que ficaria somente na bexiga, às vezes, ela sobe até os rins e causa sérios danos para a gestante. E, consequentemente, essa infecção vai causar alterações no colo e fazer esse trabalho de parto prematuro. Fora o risco de o próprio bebezinho ter problemas devido a essa infecção”, explica o ginecologista.
Imagem: Entrevista com o ginecologista Dr Luiz Dalama - Foto: Pedro Cezar.
Dalama detalha que o quadro pode evoluir para a corioamnionite, uma inflamação severa das membranas uterinas. “São bactérias que são uma próprio auto contaminação da paciente. Uma bactéria que é proveniente de humanos. O fato de as gestantes, às vezes, na higiene, ficar um pouquinho mais difícil de fazer, aumenta o risco de ter essa infecção”.
O caminho apontado pelos especialistas para aliviar esses danos passa obrigatoriamente pela prevenção básica e pelo tratamento rigoroso. “O primeiro passo é sempre fazer o pré-natal. Se o colega prescrever a medicação, use corretamente, tomar bastante líquido, cuidado com a higiene”, diz Dalama.
Ele acrescenta outra doença crônica silenciosa como agravante: “Infelizmente, a diabetes gestacional é um mal para a gestante que pode surgir vários efeitos negativos durante a gestação. A diabetes já fragiliza a gestante por completo. Ela tem mais chances de ter infecções. Ela tem mais chances de ter problemas no desenvolvimento do feto. E chega num ponto que é necessário interromper essa gestação antecipadamente. E no nascimento do bebezinho, já é um bebezinho que a gente tem que ficar de olho nele. Não é um bebezinho que nasce bem, na maioria das vezes. É um bebezinho que necessita cuidados especiais”.
A rotina na retaguarda do alto risco
O fluxo de grávidas em perigo deságua diretamente na ala especializada da Maternidade Almeida Castro. “Elas são pacientes que ou têm alguma alteração durante o pré-natal, alteração de pressão, descontrole de glicemia ou pacientes que sentiram alguma alteração em casa, teve algum sangramento, algum movimento, perda de líquido e procurou o serviço porque aqui nós somos porta aberta para essas gestantes. É um pronto-socorro obstétrico”, descreve a médica residente Fernanda Viana.
Ao entrarem na unidade, o monitoramento muda de patamar. “Elas chegam aqui, são atendidas e, se necessário, internadas aqui no que a gente chama de GAR, que é a Enfermaria para Gestantes de Alto Risco”, reforça Fernanda. O setor chegar a receber até 20 internações semanais.
Para o obstetra Manoel Nobre, as causas da prematuridade formam um tripé clínico e social bem conhecido. “Um bebê nascer antes da data, tem várias causas, mas a principal é hipertensão, junto com isso as diabetes gestacionais, infecções urinárias e uma má assistência de pré-natal, levam a uma prematuridade”.
Foto: Cezar Alves
O médico pontua que o baixo peso opera em duas frentes distintas: “O baixo peso ter de duas formas, pode ser uma patologia da gravidez da mãe, a criança pode nascer com os nove meses certinho e esse bebê nasce com baixo peso. Ou, uma criança prematura que já é de baixo peso. O pré-natal é super importante, se a mãe tem uma má orientação nutricional o bebê dela pode nascer com baixo peso, como também, se ela for tabagista, usuária de drogas ilícitas”.
Apesar da gravidade, o avanço tecnológico na medicina neonatal de Mossoró estendeu a linha da sobrevivência. “A experiência que a gente tem com sobrevida, com prematuridade extrema são muito boas. Hoje, bebês com 1kg é uma realidade nossa que sobrevive tranquilamente, sem nenhuma intercorrência. Mas, ainda assim, é um problema muito sério de saúde, a comorbidade é muito grande. Às vezes, é um bebê que precisa ficar internado com a mãe de 3 a 5 meses, até que a criança tenha um peso ideal para ir pra casa”, relata o obstetra.
A busca ativa como barreira sanitária
Para evitar que o desfecho de partos antecipados sobrecarregue os leitos de UTI Neonatal, a rede municipal tenta cercar as gestantes antes que as infecções ou a pressão subam. Mossoró conta hoje com 73 equipes habilitadas espalhadas por 50 Unidades Básicas de Saúde (UBS).
“Existe o risco habitual para as gestantes e existe o alto risco. Dentro das nossas consultas, nas unidades de saúde, o Ministério da Saúde preconiza, pelo menos, sete consultas. E nós temos essa responsabilidade sanitária de estar buscando essa gestante, caso ela falte e não compareça aos atendimentos médicos”, pontua a assistente social Diana Paula.
O trabalho de monitoramento exige uma gincana territorial diária por parte do município. “Ao ser identificado durante as consultas que aquele pré-natal não é de risco habitual, ela é automaticamente encaminhada aos nossos serviços especializados, como o AME (Ambulatório Materno Infantil). Às vezes acontece de alguma gestante trocar de território e ela não conseguir completar aquele ciclo de sete consultas, mas aí a gente tenta buscar. Fazemos uma comunicação entre equipes para saber onde essa mulher pode estar”, relata Diana.
O comparecimento sistemático às consultas serve para garantir a realização de exames preventivos cruciais — os mesmos que pegariam a infecção urinária ocultam descrita pelo Dr. Dalama logo no início. “Esses exames são muito importantes, não apenas os laboratoriais, mas os ultrassons, as vacinas que são muito importantes. Existem vacinas que são obrigatórias. Além de consultas com dentistas, que é uma recomendação”, conclui a assistente social, indicando que a saúde bucal também influencia diretamente no tempo de gestação.
