
O governo do Rio Grande do Norte anunciou a criação de uma sala de situação permanente para monitorar e mitigar os impactos do fenômeno El Niño, cujos efeitos de estiagem severa no Nordeste devem se estender até meados de 2027. O gabinete de crise vai integrar equipes técnicas federais, estaduais e das 167 prefeituras potiguares em reuniões periódicas para traçar diagnósticos e coordenar ações de resposta.
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O anúncio foi feito pela governadora Fátima Bezerra nesta quinta-feira (3), durante reunião com gestores municipais e representantes de órgãos federais na Casa da Indústria, sede da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (FIERN), em Natal.
Cientistas alertam que o atual ciclo do El Niño — caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial — apresenta uma configuração "muito forte". Segundo a Secretaria de Relações Institucionais (SRI) da Presidência da República, a estimativa de aquecimento para este período é de 2,7°C, superando a marca de 2,2°C registrada em 2023. Na prática, a intensidade do fenômeno reduz drasticamente as chuvas na região.
"Se isso se concretizar, os efeitos danosos que esse El Niño trará para as nossas vidas reforçam a importância de nos anteciparmos e planejarmos ações preventivas para mitigarmos esses impactos", declarou a governadora, destacando o risco iminente de redução das reservas hídricas do estado.
Blindagem hídrica e obras federais
Para tentar frear o colapso no abastecimento, a gestão estadual aposta na conclusão de grandes obras de infraestrutura feitas em parceria com a União. Entre os ativos mencionados está a Barragem de Oiticica, em Jucurutu, inaugurada no ano passado. Segundo maior reservatório do RN, com capacidade para 742 milhões de metros cúbicos, a estrutura opera hoje com 75% do seu volume total.
O governo também conta com o fluxo do Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF). Desde agosto, as águas captadas no Eixo Norte (Cabrobó-PE) cruzam Pernambuco, Paraíba e Ceará até desaguarem em solo potiguar. No Oeste do estado, a engenharia se concentra no Ramal do Apodi para interligar o Velho Chico às redes locais, com avanço recente das águas pelo Túnel Major Sales em direção à Barragem Pau dos Ferros, atualmente com 50% de sua capacidade.
No pacote de segurança hídrica para o interior e comunidades rurais, foram anunciados investimentos de R$ 100 milhões no sistema adutor Apodi-Mossoró, além de repasses do Novo PAC para a Adutora do Agreste e programas para perfuração de poços e instalação de dessalinizadores.
Recuperação de barragens e Defesa Civil
Paralelamente, o Executivo estadual investiu R$ 20 milhões na reestruturação física de 28 barragens e açudes que se encontravam em estado de abandono. O objetivo é evitar o risco de rompimentos e garantir a acumulação de água para consumo humano e pecuária. Dezesseis reservatórios já foram entregues e as nove intervenções restantes têm previsão de conclusão no segundo semestre deste ano.
Na outra ponta, a Defesa Civil Estadual informou que prepara os municípios para atuarem na linha de frente de eventuais desastres climáticos. "Temos que ter uma Defesa Civil resiliente, preparada para o enfrentamento e os efeitos na população potiguar", afirmou o coordenador do órgão, coronel Alexandre Henrique Fonsêca.
Pacto federativo contra o negacionismo
Em Brasília, o governo federal ativou uma sala de situação permanente composta por 24 ministérios para dar suporte aos estados federados. Em pronunciamento gravado, o ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, defendeu que a coordenação centralizada entre a SRI e a Casa Civil evitará que as populações vulneráveis sejam surpreendidas pelo desabastecimento ou por incêndios florestais.
De acordo com o Secretário Especial de Assuntos Federativos, José Ilário Marques, o plano de contingenciamento do governo federal vai se balizar estritamente por modelagens científicas de previsão do tempo, em uma sinalização política de distanciamento de teses negacionistas. O objetivo, segundo ele, é garantir que verbas emergenciais cheguem de forma célere à ponta do território.
A reunião de lançamento da sala de monitoramento contou com a presença de secretários de Estado (Infraestrutura, Agricultura Familiar e Assuntos Federativos), dirigentes do Idema e da Emparn, além de comitivas de prefeitos lideradas pela Federação dos Municípios do RN (Femurn) e superintendentes de autarquias federais como Conab, IBGE, Funasa e DNIT.