COLUNA OPINIÃO
Jean Paul Prates é sócio da Altiva Inteligência Estratégica. Atua no conselho de empresas de energia, mobilidade, infraestrutura e economia digital. Foi presidente da Petrobrás e Senador da República. É Mestre em Política Energética e Gestão Ambiental pela Universidade da Pensilvânia e Mestre em Economia da Energia pela IFP School (Paris).
NATAL, 22 de JUNHO DE 2026
O debate energético brasileiro tem produzido um paradoxo cada vez mais difícil de defender. De um lado, o país comemora, com razão, a expansão de sua geração eólica e solar, sobretudo no Nordeste, e projeta para si um papel de protagonismo na transição energética global. De outro, aceita com desconcertante naturalidade o desperdício crescente dessa mesma energia renovável, ao mesmo tempo em que contrata termelétricas fósseis caras para entregar potência ao sistema. Em outras palavras: deixamos de usar energia limpa que já existe e, em seguida, pagamos mais caro por energia térmica para suprir um problema que, em grande medida, poderia ser tratado com inteligência sistêmica, armazenamento, reforço de rede e gestão da demanda.
É nesse ponto que a discussão sobre baterias precisa ser recolocada em seus devidos termos. No Brasil, o tema do armazenamento ainda é frequentemente tratado como se estivéssemos diante de uma tecnologia “promissora”, porém cara, dependente de subsídios e ainda à procura de um caso de uso convincente. Essa abordagem talvez pudesse fazer algum sentido há alguns anos, ou em mercados com outra configuração tecnológica e geográfica. Mas ela já não descreve a realidade brasileira. Hoje, especialmente em estados como Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Bahia, existe geração renovável instalada, pronta, competitiva e, em vários momentos, ociosa ou cortada por falta de flexibilidade operacional do sistema, por limitações de escoamento e por insuficiência de instrumentos de acomodação dessa energia no horário e no lugar adequados.
O problema brasileiro não é apenas como gerar mais energia. É, cada vez mais, como parar de jogar fora a energia renovável que já geramos.
A palavra técnica para esse desperdício é curtailment, e ela já deixou de ser uma curiosidade relativa ao operador para se tornar um dos grandes temas da política energética nacional. Quando um parque eólico ou solar deixa de entregar ao sistema uma energia que poderia gerar, não estamos apenas diante de uma frustração empresarial. Estamos diante de uma ineficiência econômica, de um sinal regulatório ruim, de um desestímulo ao investimento e de uma distorção sistêmica que atinge toda a cadeia. Afinal, o país investiu para produzir aquela energia, licenciou o empreendimento, construiu a conexão, ocupou território, mobilizou capital, empregos e cadeia produtiva. Se, ao final, o sistema não consegue absorver essa produção, a perda é coletiva.
Nesse contexto, baterias não são um capricho tecnológico nem uma moda importada. São uma das respostas possíveis, e em muitos casos necessárias, para capturar o excedente de geração renovável, armazená-lo por algumas horas e devolvê-lo ao sistema quando ele for mais útil. O valor dessa solução, no caso brasileiro, não está apenas na prestação de potência em momentos críticos. Está também, e talvez principalmente, na possibilidade de reduzir o desperdício de energia limpa, dar flexibilidade ao sistema, aliviar restrições operativas e deslocar a oferta renovável para as horas em que ela vale mais para o consumidor e para a confiabilidade do SIN.
É precisamente por isso que a comparação automática com os Estados Unidos costuma ser enganosa. O sistema elétrico norte-americano tem outra geografia, outra matriz, outro mercado de gás, outro arranjo regulatório e outra lógica de expansão. Em vários casos, o armazenamento lá é debatido em função da arbitragem de preços, da retirada de térmicas antigas ou do atendimento de picos de demanda em mercados altamente segmentados. No Brasil, o quadro é distinto. Nós já temos uma matriz elétrica relativamente limpa, forte presença hidrelétrica e um crescimento muito acelerado da geração eólica e solar, concentrado em regiões específicas e, por isso mesmo, sujeito a gargalos de transmissão e estabilidade. O papel das baterias aqui precisa ser pensado não apenas como reserva de potência, mas como instrumento de integração renovável, redução de curtailment, otimização da infraestrutura existente e reforço da segurança operativa.
A forma como enquadramos o problema determina a solução que passamos a defender. Se o diagnóstico for de que o Brasil “carece de energia firme” e, por isso, deve contratar grandes volumes de termelétricas a gás como espinha dorsal da expansão, então o armazenamento aparecerá sempre como um acessório caro. Mas se o diagnóstico correto for que o país já dispõe de uma base renovável crescente e competitiva, porém mal integrada e mal aproveitada, então o armazenamento deixa de ser um luxo e passa a ser parte da infraestrutura necessária para tornar a própria transição funcional.
Não se trata, evidentemente, de dizer que bateria resolve tudo. Não resolve. O sistema elétrico brasileiro precisa, ao mesmo tempo, de expansão e reforço da transmissão, modernização de subestações, compensadores síncronos e outros equipamentos de controle de tensão e frequência, digitalização da operação, mecanismos de resposta da demanda, sinalização locacional mais inteligente e melhor coordenação entre geração, rede e consumo. O erro está em reduzir a discussão a uma falsa escolha entre “construir linhas” ou “instalar baterias”, como se uma coisa excluísse a outra. O que se impõe é um desenho integrado de flexibilidade. Em um sistema com participação crescente de fontes variáveis, a infraestrutura do futuro não é feita apenas de mais megawatts de geração ou de mais quilômetros de cabo. Ela é feita de capacidade de modular, armazenar, deslocar, estabilizar e consumir energia com inteligência.
A experiência internacional mais interessante para o Brasil, aliás, não é a dos mercados que tratam armazenamento apenas como complemento marginal. É a dos países que entenderam que a transição energética exige coordenação entre renováveis, baterias, rede, digitalização e política industrial. A China é, hoje, o exemplo mais eloquente disso. O país ampliou de forma massiva sua capacidade solar e eólica, expandiu redes de transmissão de longa distância, investiu pesadamente em manufatura de baterias e passou a tratar o armazenamento como peça integrante da arquitetura do sistema. Não por filantropia climática, mas por pragmatismo industrial e elétrico. Quanto mais renovável se instala, mais flexibilidade o sistema precisa ter. Quanto maior a capacidade de armazenar e deslocar energia, menor a necessidade de despachar geração fóssil cara apenas para “tampar buracos” de operação. E quanto mais o país domina essa cadeia, mais transforma a transição em vantagem competitiva.
O Brasil, ao contrário, corre o risco de caminhar na direção oposta. Em vez de aproveitar o curtailment como sinal de que chegou a hora de acelerar armazenamento, digitalização e gestão inteligente do sistema, parte do debate tenta naturalizar uma expansão térmica a gás como se ela fosse a resposta óbvia para a segurança elétrica nacional. Não é. Pode ser parte da resposta, em doses adequadas e em aplicações estratégicas. Mas transformá-la em eixo central da expansão seria um equívoco econômico, energético e geopolítico.
O primeiro problema dessa aposta é o custo. O Brasil não é os Estados Unidos. Não dispõe de gás abundante, barato, próximo e facilmente escoável em volume suficiente para sustentar uma guinada térmica de larga escala sem elevar custos e dependências. Nosso gás é, em geral, mais caro, mais remoto e mais complexo do ponto de vista logístico. Uma parcela importante da oferta está distante dos centros de consumo, depende de infraestrutura cara de escoamento e processamento, ou concorre com usos de maior valor econômico. Construir uma estratégia de segurança elétrica baseada na expansão massiva de termelétricas a gás, portanto, não é apenas uma escolha tecnológica: é uma escolha tarifária e geopolítica.
O segundo problema é a alocação do recurso. O gás natural tem papel relevante a desempenhar no Brasil, mas justamente por isso deve ser tratado como insumo estratégico, e não como solução universal. Seu uso faz mais sentido em segmentos nos quais agrega valor, aumenta competitividade industrial, reduz custos de produção e substitui insumos mais caros ou mais poluentes de forma racional. Fertilizantes, química, indústria e usos térmicos intensivos são exemplos evidentes. Queimar gás em grande escala para gerar eletricidade em um país que já dispõe de uma base hidráulica importante, enorme vocação eólica e solar, e potencial offshore extraordinário significa deslocar um recurso escasso para uma aplicação em que ele concorrerá com alternativas mais limpas e, no médio prazo, possivelmente mais baratas.
O terceiro problema é a dependência externa que essa escolha tende a criar. Sempre que o país eleva o peso do gás em sua matriz elétrica além daquilo que sua produção doméstica consegue oferecer de forma competitiva, abre-se espaço para uma dependência crescente de importações, seja na forma de GNL, seja por meio de suprimento regional por gasodutos. Não há nada de errado em manter essas alternativas disponíveis. Ao contrário: diversificar fontes de suprimento pode ser útil. O erro está em estruturar a expansão do sistema elétrico de modo a depender delas como condição permanente de equilíbrio. Isso significa expor a conta de luz, a indústria e a segurança energética brasileira à volatilidade internacional de preços, a tensões geopolíticas e a condições de oferta que simplesmente não controlamos.
É aqui que a noção de soberania energética precisa ser resgatada de forma séria. Soberania energética não é autarquia, nem fetiche nacionalista. É capacidade de organizar os próprios recursos de forma a reduzir vulnerabilidades, aproveitar vantagens comparativas e proteger a economia doméstica de choques desnecessários. Um país que dispõe de vento abundante, insolação excepcional, reservatórios, biomassa, potencial offshore e uma base elétrica relativamente limpa não deveria tratar a queima de gás importado como caminho natural para dar robustez à sua expansão. Deveria, antes, fazer o dever de casa da flexibilidade: armazenar melhor, operar melhor, transmitir melhor, precificar melhor e planejar melhor.
O debate sobre baterias, portanto, não pode ser reduzido à pergunta estreita sobre “quanto custa o megawatt contratado”. O custo relevante não é apenas o da bateria em si. É também o custo de continuar desperdiçando energia renovável pronta, o custo de contratar potência fóssil cara para cobrir lacunas de flexibilidade, o custo de retardar a modernização do sistema e o custo de empurrar o país para uma dependência maior de gás em usos para os quais ele não deveria ser prioritário. Em muitos casos, a comparação correta não é entre “bateria versus nada”, mas entre “bateria e flexibilidade” de um lado e, de outro, “mais curtailment, mais térmica cara e mais exposição ao gás”.
É por isso que a agenda brasileira de armazenamento precisa ser ambiciosa e pragmática ao mesmo tempo. Ambiciosa porque o país já não pode tratar o tema como experiência lateral ou piloto exótico. E pragmática porque o armazenamento deve ser implantado onde ele faz mais sentido sistêmico: próximo a polos de geração renovável com energia ociosa, em pontos críticos da rede, associado a subestações e barramentos relevantes, integrado à gestão de demanda e coordenado com a expansão da transmissão. Não se trata apenas de “fazer leilão de baterias”. Trata-se de redesenhar a lógica de planejamento para um sistema em que flexibilidade passa a ter valor central.
A boa política energética não é a que escolhe um vencedor ideológico entre gás, bateria, hidrelétrica, eólica ou solar. É a que entende a função de cada recurso dentro de uma arquitetura coerente de longo prazo. O Brasil precisa de gás, sim, mas usado com parcimônia e inteligência. Precisa de transmissão, sem dúvida, mas pensada para um sistema mais dinâmico e descentralizado. Precisa de armazenamento, e não como adereço, mas como instrumento de eficiência, integração renovável e redução de desperdício. Precisa de digitalização, resposta da demanda, sinal locacional e modernização regulatória. Precisa, em suma, de uma visão de Evolução Energética, na qual novas tecnologias não substituem dogmaticamente as anteriores, mas se combinam de forma racional para produzir um sistema mais limpo, mais barato, mais resiliente e mais soberano.
Persistir no caminho de desperdiçar vento e sol no Nordeste para contratar termelétricas caras e ampliar a dependência de gás, não é prudência. É má alocação de recursos. É insistência em uma lógica do século passado justamente no momento em que o Brasil reúne condições raras para liderar o sistema elétrico do futuro.
O desafio brasileiro não é escolher entre segurança energética e transição. O desafio é entender que, no nosso caso, segurança energética de verdade passa precisamente por fazer a transição com inteligência.