
No imaginário popular do semiárido potiguar, a frase "o sertão vai virar mar" ecoa como uma profecia antiga. Em Apodi, contudo, a comunidade convive com uma realidade inversa: a de que o mar já esteve ali e deixou suas marcas no subsolo. O município vive um paradoxo hídrico. Ao mesmo tempo em que abriga um valioso manancial de água mineral, a cidade registra uma grande quantidade de poços artesianos que vertem uma água salobra, com alta concentração de sal, desafiando o abastecimento local.
A explicação para essa convivência entre a fartura de água doce e a predominância da água salgada está na profundidade das perfurações. De acordo com o professor Dr. Rafael Batista, da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), o sucesso da captação depende de onde o poço é escavado. “Isso, essa questão da qualidade de água subterrânea depende da profundidade onde há a perfuração. Então, profundidades maiores, você vai atingir aí o aquífero Arenito Assu, se não me falho a memória, aqui, e aí ele tem uma água doce. Água de melhor qualidade, e perfurações de poços mais rasos podem pegar aí uma qualidade de água mais salobra, com os níveis de salinidade maior”, detalha o pesquisador.
Essa diferença de qualidade não decorre de contaminação provocada pela ação humana, mas sim de processos geológicos que remontam a milhões de anos, confirmando a tese de que a região já foi coberta pelo oceano. “São condições, basicamente, de transformação da rocha”, afirma o professor Batista. “E aí, nesse processo de transformação da rocha, você tem a liberação de elementos químicos, e, antigamente, no local, ter sido o fundo do mar, do oceano. Porque nós estamos num planeta onde há uma dinâmica de placas tectônicas. Então, o que hoje é mar, pode ser que daqui milhões de anos, bilhões de anos, se torne uma área elevada. E aí, ficam esses resíduos de sais, e aí, isso é transferido para as águas perenes”.
Para o especialista, a presença do sal nas águas superficiais exige uma abordagem técnica que começa pelo diagnóstico laboratorial, permitindo encontrar saídas viáveis para o consumo da população. “O adequado é fazer uma análise dessa água, detectar o nível de salinidade, e aí existem as medidas mitigadoras”, orienta o docente da UFERSA. A principal alternativa adotada na região tem sido o uso de sistemas de dessalinização, que filtram o excesso de minerais e tornam o recurso próprio para o uso doméstico.
O processo de tratamento físico-químico consegue aproximar a água dos poços rasos aos padrões de potabilidade das fontes minerais profundas. “Então, um processo de dessalinização, com adição de sais minerais, torna essa água uma água dessalinizada, incorporada de sais minerais, atendendo aos padrões para consumo humano”, garante o Dr. Rafael Batista. Com a tecnologia, o município consegue mitigar a escassez de água potável, embora a operação dos equipamentos traga novos desafios ambientais para a administração pública e para as comunidades rurais.
O principal entrave do processo é o destino do rejeito salino que sobra após a filtragem. O professor alerta que o descarte incorreto pode degradar o meio ambiente, mas destaca que esse resíduo pode ser reaproveitado em cadeias produtivas locais. “E aí, lembrar de cuidar do rejeito, do rejeito que sobra, que poderia ser aproveitado para a criação de peixes, e de uma forma controlada, ser usada no solo para irrigação, com culturas tolerantes à salinidade, e o manejo do solo com matéria orgânica, e monitoramento para não degradar esse solo”, conclui.
